O terror sempre soube misturar medo e desejo, talvez melhor do que gostaríamos de admitir
Há algo de curiosamente honesto no cinema de terror. Enquanto outros gêneros se esforçam para parecer sofisticados, polidos ou moralmente alinhados ao seu tempo, o horror costuma operar em um nível mais primitivo, quase instintivo. Ele fala de medo, claro, mas também fala de desejo. E, com frequência, das duas coisas ao mesmo tempo.
Não é coincidência que a discussão sobre a chamada Teoria do Male Gaze, popularizada por Laura Mulvey, encontre no terror um campo fértil. Diferente de outros gêneros que tentam disfarçar ou suavizar o olhar do espectador, o horror historicamente o escancara. Ele não apenas reconhece que existe um olhar — ele brinca com ele, distorce-o, pune-o e, em muitos casos, transforma-o em parte da própria experiência.
Voltar aos clássicos ajuda a entender isso com mais clareza. Em Halloween, a câmera observa, espreita e assume o ponto de vista do predador, mas também o do espectador. Em Sexta-Feira 13, corpos jovens são exibidos com uma naturalidade quase despreocupada, até que deixam de estar seguros. Já em A Hora do Pesadelo, o erotismo aparece de forma mais onírica, quase simbólica, misturando vulnerabilidade e fascínio em doses difíceis de separar.
O que esses filmes entendiam, e que muitas discussões contemporâneas parecem evitar, é que a beleza feminina no terror nunca foi apenas decoração. Ela é linguagem. É contraste. É vulnerabilidade exposta, mas também poder latente. A chamada final girl, por exemplo, frequentemente começa como objeto de observação e termina como sujeito da narrativa. O olhar que a enquadrava é, eventualmente, confrontado por ela.
Isso não significa que o gênero seja inocente ou isento de crítica. Muito pelo contrário. O terror sempre flertou com a exploração, o exagero e a fetichização. Mas talvez seja justamente essa falta de pudor que o torna mais interessante de analisar. Ele não tenta esconder suas contradições; ele as projeta na tela.
Nos últimos anos, parte do cinema de horror parece ter optado por um caminho mais consciente, por vezes até mais contido. A beleza feminina passou a ser frequentemente filtrada por uma preocupação em não parecer “problemática”. O resultado, em alguns casos, é uma estética mais neutra, menos provocativa e, paradoxalmente, menos memorável.
Isso levanta uma questão incômoda: ao tentar corrigir excessos do passado, o terror não estaria também abrindo mão de uma de suas ferramentas mais eficazes? Afinal, o desconforto, seja ele causado pelo medo ou pelo desejo, sempre foi uma das engrenagens centrais do gênero.
Talvez a resposta não esteja em rejeitar novas abordagens, mas em reconhecer que o olhar masculino, assim como qualquer outro, faz parte da história do cinema. Ignorá-lo não o elimina, apenas empobrece a conversa. E o terror, quando está em sua melhor forma, nunca foi um gênero interessado em simplificar as coisas.
O que o horror parece nos lembrar, repetidamente, é que aquilo que nos atrai também pode nos ameaçar. Encarar essa dualidade de frente, sem fingir que ela não existe, pode ser muito mais interessante do que tentar domesticá-la.

A teoria do Male Gaze é danosa porque o horror opera com o desconforto como matéria-prima. Quando você filtra a beleza feminina por uma lente woke, você perde potência. Hoje, boa parte do horror mainstream (especialmente os com narrativa woke) apresenta resultado menos memorável, como foi dito. O horror sempre funcionou melhor quando abraça o incômodo em todas as suas formas. O paradoxo é: em nome de “corrigir excessos do passado”, criou-se um novo excesso — o puritanismo progressista que achata a provocação. Quando a ideologia substitui a busca pela potência estética, a arte fica mais fraca.
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