Kane Parsons transforma sua famosa série em um terror visualmente impressionante, mas o excesso de drama e metáforas impede que o mistério alcance todo o seu potencial.
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| 'Backrooms: Um Não-Lugar' | Foto: © A24 |
Poucas lendas da internet pareciam tão prontas para ganhar uma adaptação cinematográfica quanto Backrooms. Nascida de uma simples imagem publicada no 4chan em 2019, a creepypasta rapidamente se transformou em um fenômeno online graças à ideia perturbadora de um universo formado por corredores infinitos, escritórios vazios e salas banhadas por uma iluminação amarela capaz de provocar ansiedade apenas por existir.
Kane Parsons ajudou a consolidar esse imaginário com sua série de curtas no YouTube e, agora, estreia no cinema justamente adaptando o universo que ajudou a popularizar. Cercado por nomes de peso como a A24 e a Atomic Monster, de James Wan, além do roteiro de Will Soodik (Ash vs. Evil Dead), o projeto parecia reunir todos os ingredientes para se tornar um dos grandes terrores do ano. O resultado fica alguns corredores antes da saída de emergência, o que não impediu que o filme alcançasse uma bilheteria impressionante.
Backrooms: Um Não-Lugar apresenta Clark (Chiwetel Ejiofor), proprietário do pomposamente batizado Império Otomano do Capitão Clark, uma loja de móveis tão vazia que parece já existir dentro das próprias backrooms. Abandonado pela esposa, alcoólatra, arquiteto frustrado e aparentemente incapaz de diferenciar um sultão de um pirata, Clark passa os dias gravando comerciais constrangedores para sua loja que ninguém visita, e as noites dormindo no porão. Uma noite, uma das parede resolve ignorar as leis da física e o convida para entrar em um labirinto impossível de corredores, salas e escritórios que parecem uma cópia defeituosa da realidade.
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| 'Backrooms: Um Não-Lugar' | Foto: © A24 |
Parsons demonstra enorme talento quando resolve simplesmente deixar esse universo existir. A sequência de abertura já recupera boa parte da sensação inquietante presente nos curtas originais, enquanto as primeiras explorações das backrooms conseguem provocar exatamente aquilo que tornava a creepypasta tão fascinante: o medo do desconhecido. O diretor entende que o terror daqueles espaços não está apenas em criaturas escondidas pelos corredores, mas na possibilidade de caminhar por horas sem encontrar qualquer lógica, qualquer saída ou qualquer sinal de que ainda existe um mundo normal do lado de fora.
Esse mérito é amplificado por um trabalho técnico impecável. O design de produção impressiona ao combinar cenários físicos e efeitos digitais quase invisíveis para construir ambientes que parecem ao mesmo tempo familiares e completamente alienígenas. Cada corredor torto e cada parede sem função transmitem uma sensação permanente de claustrofobia. A mixagem de som merece elogios especiais: lâmpadas fluorescentes zumbindo sem parar, vozes distantes, ruídos metálicos e ecos indefiníveis fazem companhia constante aos personagens, criando desconforto mesmo quando absolutamente nada acontece na tela. É o tipo de filme que consegue transformar um simples corredor vazio em algo profundamente ameaçador.
As criaturas são utilizadas com inteligência durante boa parte da narrativa. Parsons resiste à tentação de mostrar monstros o tempo inteiro e entende que sugerir costuma ser muito mais eficiente do que revelar. Quando Clark resolve explorar o labirinto acompanhado pelos funcionários Bobby (Finn Bennett) e Kat (Lukita Maxwell), a tensão cresce naturalmente à medida que pequenas anomalias começam a surgir pelos cantos dos cenários. Mais tarde, a entrada em cena de um personagem interpretado pelo gigantesco Robert Bobroczky leva o filme definitivamente ao chamado vale da estranheza, rendendo uma perseguição bastante eficiente e uma das melhores sequências de terror do longa.
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| 'Backrooms: Um Não-Lugar' | Foto: © A24 |
O elenco acompanha esse cuidado. Chiwetel Ejiofor entrega um protagonista convincente, carregando nas costas o peso de um homem cuja carreira e vida pessoal parecem ter desmoronado simultaneamente. Renate Reinsve também faz um bom trabalho como Mary, a terapeuta que esconde suas próprias cicatrizes emocionais sob uma aparência acolhedora. Até Bobby e Kat escapam da armadilha comum dos personagens descartáveis, reagindo às descobertas de forma crível e contribuindo para tornar a exploração das backrooms mais envolvente.
Por outro lado, sempre que o filme decide abandonar os corredores para voltar à vida dos personagens, o interesse despenca. Parsons dedica tempo demais aos traumas de Clark, aos flashbacks fragmentados envolvendo Mary e, principalmente, a uma metáfora sobre pessoas aprisionadas nas próprias memórias. Não chega a ser uma ideia ruim, mas parece completamente desnecessária diante da força do conceito original.
Há algo fascinante na possibilidade de que as backrooms simplesmente existam, indiferentes à humanidade, como uma anomalia cósmica impossível de compreender. Em vez de explorar esse mistério, o roteiro insiste em traduzi-lo para uma linguagem emocional bastante familiar ao horror contemporâneo. É uma escolha que lembra filmes como Aniquilação e O Culto, obras que também apresentavam mundos extraordinários, mas preferiam usar esses cenários para ilustrar conflitos internos dos personagens.
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| 'Backrooms: Um Não-Lugar' | Foto: © A24 |
O ritmo naturalmente sofre com essa decisão. Entre uma sequência de terror e outra, surgem longos trechos de exposição e desenvolvimento dramático que frequentemente quebram o senso de descoberta. A impressão é a de que existe um universo inteiro implorando para ser explorado logo atrás da próxima parede, enquanto o roteiro insiste em pedir que voltemos para sessões de terapia para mais uma conversa sobre culpa, luto ou memórias reprimidas. Em determinado momento, dá vontade de dizer ao filme exatamente o que Mary deveria dizer ao roteiro: "Pode deixar minha infância traumática para depois. Tem um corredor infinito me esperando."
Backrooms: Um Não-Lugar é um filme curioso justamente porque funciona melhor quando se aproxima do material que lhe deu origem e pior quando tenta justificar sua própria existência como longa-metragem. Kane Parsons confirma possuir talento visual e demonstra saber construir imagens perturbadoras, mas ainda parece inseguro quanto à necessidade de explicar aquilo que talvez devesse permanecer inexplicável. É um terror competente, tecnicamente refinado e ocasionalmente arrepiante, mas incapaz de explorar todo o potencial de um dos conceitos mais fascinantes que a internet produziu na última década.
Nota: 5,8/10
Título Original: Backrooms.
Título Nacional: Backrooms: Um Não-Lugar.
Gênero: Terror.
Produção: 2026.
Lançamento: 2026.
País: Estados Unidos da América, Canadá.
Duração: 1 h 50 min.
Roteiro: Will Soodik.
Direção: Kane Parsons.
Elenco: Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Mark Duplass, Finn Bennett, Lukita Maxwell, Avan Jogia, Robert Bobroczkyi, Ember Ambrose, Krista Kosonen, Philip Granger, Katharine Isabelle, Peter New, Sarah Hayward.
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