Gustavo Hernández mistura drama familiar, serial killers, invasão domiciliar e sobrenatural em um terror irregular que só encontra seu rumo na reta final
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| Luciano Cáceres em 'O Sussurro' |
Quando Gustavo Hernández chamou atenção do público internacional com A Casa, em 2010, parecia ter surgido uma voz interessante dentro do terror latino-americano. Desde então, o diretor continuou transitando pelo gênero em produções como No dormirás e Lobo feroz, sempre demonstrando interesse por personagens psicologicamente fragilizados e situações de desconforto crescente. Com O Sussurro, Hernández tenta reunir várias dessas obsessões em um único filme. O resultado é curioso, ocasionalmente intrigante e frequentemente frustrante.
A abertura nos apresenta à jovem Lucía (Ana Clara Guanco), enquanto ela limpa cuidadosamente a cena de um assassinato brutal cometido pelo próprio pai. Não é exatamente a atividade que a maioria dos adolescentes escolhe para passar uma tarde de domingo, mas serve para estabelecer rapidamente a dinâmica perturbadora daquela família. O patriarca Victor, vivido por Luciano Cáceres, surge como uma figura ameaçadora desde sua primeira aparição, alguém cuja presença domina cada ambiente e cuja influência parece impossível de escapar.
Naturalmente, Lucía sonha em fugir daquele mundo de horrores. Quando ela finalmente coloca esse plano em prática e parte para uma região isolada acompanhada do irmão mais novo, Adrián (Marcelo Michinaux), o filme parece se encaminhar para uma história de sobrevivência e reconstrução emocional. Hernández e sua roteirista, Juma Fodde, no entanto, têm outras ideias. Ou melhor, têm muitas ideias.
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| 'O Sussurro' |
A chegada dos irmãos à mansão cercada por florestas cria um mistério inicialmente promissor. O aparecimento de um dedo humano trazido pelo gato da protagonista sugere que algo muito errado está acontecendo na região. A partir daí, o filme brinca constantemente com as expectativas do espectador. O perigo vem do pai assassino? Dos vizinhos estranhos? De algum segredo enterrado naquela comunidade isolada? Durante um bom tempo, a resposta parece ser "talvez tudo isso".
O problema é que a narrativa demora demais para transformar essas perguntas em algo realmente envolvente. O relacionamento entre Lucía e Adrián raramente ultrapassa o funcional, e a própria protagonista nunca se torna particularmente interessante. Quando o filme tenta se estabelecer como thriller psicológico, falta intensidade. Quando flerta com o cinema de invasão domiciliar, falta urgência. E quando finalmente sugere caminhos mais perturbadores, parece hesitar diante das próprias possibilidades.
Uma das mudanças mais interessantes acontece quando uma nova personagem entra em cena e a história começa a apontar para territórios associados aos infames snuff movies. É uma direção que poderia ter levado o filme a lugares genuinamente desconfortáveis, mas Hernández recua quase imediatamente. O que poderia ser uma exploração perturbadora acaba reduzido a algumas sugestões superficiais. A sensação é de assistir a um cineasta acumulando conceitos promissores numa mesa, apenas para abandoná-los assim que se tornam realmente provocativos.
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| Ana Clara Guanco Aguilera em 'O Sussurro' |
Por volta da metade da projeção, porém, algo finalmente acontece. Elementos sobrenaturais começam a surgir, e o filme parece despertar de um longo cochilo narrativo. Não se trata exatamente de uma reinvenção completa, mas a energia muda. As cenas ganham mais ritmo, a ameaça se torna mais concreta e a direção passa a explorar melhor os elementos de horror que até então permaneciam adormecidos.
Os efeitos especiais não são particularmente impressionantes, mas cumprem sua função. Mais importante: Hernández finalmente entrega algumas sequências sangrentas bem construídas, e momentos de tensão e choques visuais que justificam a classificação como filme de terror. Há também um esforço visível para conectar os diversos mistérios espalhados ao longo da narrativa, permitindo que parte da mitologia apresentada encontre alguma coerência.
Nem tudo funciona. Algumas explicações chegam tarde demais, outras parecem simplificadas demais, e a maioria dos personagens permanecem subdesenvolvidos. Ainda assim, a reta final possui energia suficiente para tornar a experiência mais agradável do que os primeiros cinquenta minutos faziam parecer possível. É quase como assistir a dois filmes diferentes compartilhando a mesma duração.
O Sussurro é uma obra que sofre menos pela falta de ideias do que pelo excesso delas. Serial killers, trauma familiar, invasão domiciliar, snuff movies e mistérios sobrenaturais disputam espaço numa narrativa que raramente decide qual história realmente deseja contar. Talvez o maior elogio que se possa fazer seja que o longa nunca deixa de sugerir a existência de um filme melhor escondido sob sua superfície.
Nota: 4/10
Título Original: El Susurro / The Whisper.
Título Nacional: O Sussurro.
Gênero: Drama, mistério, terror.
Produção: 2025.
Lançamento: 2025.
País: Uruguai, Argentina.
Duração: 1 h 29 min.
Roteiro: Juma Fodde.
Direção: Gustavo Hernández.
Elenco: Luciano Cáceres, Ana Clara Guanco Aguilera, Eytan Lasca, Marcelo Michinaux.
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