Um apito amaldiçoado que anuncia tédio iminente
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| 'O Som da Morte'. Foto: © IFC/Shudder |
A ideia por trás de O Som da Morte, o retorno de Corin Hardy ao terror depois de A Freira, tem um certo charme. Misturando ecos de Premonição com o flerte espiritual de Fale Comigo, o filme parece prometer uma experiência tensa, criativa e, quem sabe, até perturbadora. No meio do caminho, essa promessa se perde, e o que sobra é um longa que soa mais como um sopro cansado do que como um grito de horror.
Dafne Keen interpreta Chrys Willet, uma estudante perpetuamente mal-humorada que se muda para uma nova cidade e acaba orbitando um grupo de colegas que conhece no corredor. Entre um olhar atravessado e outro, Chrys encontra um artefato peculiar: um apito asteca em forma de caveira que, ao ser soprado, invoca a morte futura do ouvinte. É um conceito macabro com potencial genuíno, quase uma extensão ritualística do mecanismo de destino inevitável.
A ideia acaba não gerando bons frutos, já o filme decide investir mais tempo nas ansiedades adolescentes do que no próprio horror. Não que esse seja um problema em si, pois o terror sempre dialogou bem com angústias juvenis. Mas aqui a abordagem é tão mal calibrada que transforma o drama em monotonia. O passado traumático da protagonista, por exemplo, serve apenas como justificativa para sua expressão permanentemente sisuda, o que a torna menos complexa e mais difícil de suportar. Não há nuance, só insistência.
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| 'O Som da Morte'. Foto: © IFC/Shudder |
O mesmo vale para o restante do elenco jovem, que parece ter sido montado a partir de arquétipos clássicos e depois desmontado sem muito cuidado. Além de não conversar, não se vestir e não se comportar como jovens, o nerd não convence como nerd, a “garota inteligente” não demonstra qualquer traço de inteligência e o atleta Dean, interpretado por Jhaleil Swaby, alterna comportamentos de forma tão aleatória que chega a parecer um erro de continuidade ambulante.
Já o Noah de Percy Hynes White — um pastor que vende drogas para os próprios fiéis — é o tipo de ideia que até poderia render algo provocativo, mas aqui só soa como descuido narrativo. No meio disso tudo, Ali Skovbye e Sophie Nélisse surgem como Grace e Ellie, talvez as únicas presenças jovens minimamente carismáticas. Outro respiro vem com o ator Nick Frost, divertidamente canastrão como um professor picareta que tenta lucrar com o apito amaldiçoado.
Quando O Som da Morte decide ser um filme de terror, ele até mostra alguma vitalidade. Há uma sequência envolvendo a antecipação de uma morte por acidente de carro que abraça o gore com entusiasmo quase contagiante. Mesmo com o CGI longe de ser impecável, é um dos raros momentos em que o filme parece lembrar do tipo de experiência que deveria proporcionar.
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| 'O Som da Morte'. Foto: © IFC/Shudder |
Fora esses lampejos, o terror praticamente tira férias. Os jumpscares são mal calculados, o suspense é quase inexistente e a sensação constante é de artificialidade. O uso exagerado de CGI, em particular, compromete qualquer tentativa de imersão, deixando várias cenas com aquele aspecto plastificado que distancia o espectador em vez de envolvê-lo. É um filme sobre morte iminente que raramente consegue gerar qualquer tipo de tensão real, um feito, no mínimo, curioso.
Quando chega ao clímax, o roteiro decide sabotar a si mesmo com uma confiança impressionante na distração do público. Regras sobrenaturais estabelecidas minutos antes são convenientemente ignoradas, e o desfecho se desenrola de maneira tão arbitrária que beira o constrangimento. Não há catarse, não há surpresa, apenas a sensação de que alguém soprou o apito e o filme decidiu simplesmente desistir.
O Som da Morte é um caso clássico de boas ideias mal executadas. Há um conceito interessante, algumas referências simpáticas (incluindo nomes como Craven e até piscadelas a cineastas do gênero espalhadas pelo cenário), e um ou outro momento que sugere um filme melhor escondido ali dentro. Mas nada disso é desenvolvido com o cuidado necessário. É uma experiência morna, arrastada e, ironicamente, esquecível, o que talvez seja o pior destino possível para um filme obcecado com a inevitabilidade da morte.
Nota: 2/10
Título Original: Whistle.
Título Nacional: O Som da Morte.
Gênero: Terror.
Produção: 2025.
Lançamento: 2026.
País: Canadá, Irlanda.
Duração: 1 h 40 min.
Roteiro: Owen Egerton.
Direção: Corin Hardy.
Elenco: Dafne Keen, Sophie Nélisse, Sky Yang, Jhaleil Swaby, Ali Skovbye, Percy Hynes White, Mika Amonsen, Michelle Fairley, Stephen Kalyn, Nick Frost, Conrad Coate, Lanette Ware.


