Crítica |O Som da Morte (Whistle, 2025)

Um apito amaldiçoado que anuncia tédio iminente


Ali Skovbye como Grace no filme 'O Som da Morte'
'O Som da Morte'. Foto: © IFC/Shudder


A ideia por trás de O Som da Morte, o retorno de Corin Hardy ao terror depois de A Freira, tem um certo charme. Misturando ecos de Premonição com o flerte espiritual de Fale Comigo, o filme parece prometer uma experiência tensa, criativa e, quem sabe, até perturbadora. No meio do caminho, essa promessa se perde, e o que sobra é um longa que soa mais como um sopro cansado do que como um grito de horror.

Dafne Keen interpreta Chrys Willet, uma estudante perpetuamente mal-humorada que se muda para uma nova cidade e acaba orbitando um grupo de colegas que conhece no corredor. Entre um olhar atravessado e outro, Chrys encontra um artefato peculiar: um apito asteca em forma de caveira que, ao ser soprado, invoca a morte futura do ouvinte. É um conceito macabro com potencial genuíno, quase uma extensão ritualística do mecanismo de destino inevitável.


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A ideia acaba não gerando bons frutos, já o filme decide investir mais tempo nas ansiedades adolescentes do que no próprio horror. Não que esse seja um problema em si, pois o terror sempre dialogou bem com angústias juvenis. Mas aqui a abordagem é tão mal calibrada que transforma o drama em monotonia. O passado traumático da protagonista, por exemplo, serve apenas como justificativa para sua expressão permanentemente sisuda, o que a torna menos complexa e mais difícil de suportar. Não há nuance, só insistência.

Sophie Nélisse e Dafne Keen como Ellie e Chrys no filme 'O Som da Morte'
'O Som da Morte'. Foto: © IFC/Shudder


O mesmo vale para o restante do elenco jovem, que parece ter sido montado a partir de arquétipos clássicos e depois desmontado sem muito cuidado. Além de não conversar, não se vestir e não se comportar como jovens, o nerd não convence como nerd, a “garota inteligente” não demonstra qualquer traço de inteligência e o atleta Dean, interpretado por Jhaleil Swaby, alterna comportamentos de forma tão aleatória que chega a parecer um erro de continuidade ambulante.

Já o Noah de Percy Hynes White — um pastor que vende drogas para os próprios fiéis — é o tipo de ideia que até poderia render algo provocativo, mas aqui só soa como descuido narrativo. No meio disso tudo, Ali Skovbye e Sophie Nélisse surgem como Grace e Ellie, talvez as únicas presenças jovens minimamente carismáticas. Outro respiro vem com o ator Nick Frost, divertidamente canastrão como um professor picareta que tenta lucrar com o apito amaldiçoado.


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Quando O Som da Morte decide ser um filme de terror, ele até mostra alguma vitalidade. Há uma sequência envolvendo a antecipação de uma morte por acidente de carro que abraça o gore com entusiasmo quase contagiante. Mesmo com o CGI longe de ser impecável, é um dos raros momentos em que o filme parece lembrar do tipo de experiência que deveria proporcionar.

Imagem do filme 'O Som da Morte'
'O Som da Morte'. Foto: © IFC/Shudder


Fora esses lampejos, o terror praticamente tira férias. Os jumpscares são mal calculados, o suspense é quase inexistente e a sensação constante é de artificialidade. O uso exagerado de CGI, em particular, compromete qualquer tentativa de imersão, deixando várias cenas com aquele aspecto plastificado que distancia o espectador em vez de envolvê-lo. É um filme sobre morte iminente que raramente consegue gerar qualquer tipo de tensão real, um feito, no mínimo, curioso.

Quando chega ao clímax, o roteiro decide sabotar a si mesmo com uma confiança impressionante na distração do público. Regras sobrenaturais estabelecidas minutos antes são convenientemente ignoradas, e o desfecho se desenrola de maneira tão arbitrária que beira o constrangimento. Não há catarse, não há surpresa, apenas a sensação de que alguém soprou o apito e o filme decidiu simplesmente desistir.

O Som da Morte é um caso clássico de boas ideias mal executadas. Há um conceito interessante, algumas referências simpáticas (incluindo nomes como Craven e até piscadelas a cineastas do gênero espalhadas pelo cenário), e um ou outro momento que sugere um filme melhor escondido ali dentro. Mas nada disso é desenvolvido com o cuidado necessário. É uma experiência morna, arrastada e, ironicamente, esquecível, o que talvez seja o pior destino possível para um filme obcecado com a inevitabilidade da morte.


Nota: 2/10


Título Original: Whistle.

Título Nacional: O Som da Morte.

Gênero: Terror.

Produção: 2025.

Lançamento: 2026.

País: Canadá, Irlanda.

Duração: 1 h 40 min.

Roteiro: Owen Egerton.

Direção: Corin Hardy.

Elenco: Dafne Keen, Sophie Nélisse, Sky Yang, Jhaleil Swaby, Ali Skovbye, Percy Hynes White, Mika Amonsen, Michelle Fairley, Stephen Kalyn, Nick Frost, Conrad Coate, Lanette Ware.


Ed Walter

Criador da 'Sangue Tipo B' e escritor na comunidade de filmes de terror desde 2017. Apaixonado por filmes de terror dos anos 70 e 80. Joga 'Skyrim' até hoje.

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