Crítica | Lindas e Letais (Pretty Lethal, 2026)

Ação, suspense e terror com um toque de dança


Arte do filme 'Lindas e Letais'
Arte do filme 'Lindas e Letais'. Foto: © Prime Video


Há um tipo muito específico de filme que não pede exatamente para ser levado a sério, mas sim aceito em seus próprios termos: um pacto tácito entre obra e espectador que exige menos lógica e mais disposição para embarcar no absurdo estilizado. Lindas e Letais, novo longa da diretora britânica Vicky Jewson, se encaixa com precisão nessa categoria. Misturando suspense, ação e pitadas generosas de terror, o filme assume uma identidade que flerta com o exploitation moderno, evocando tanto o cinema de pancadaria estilizada quanto o gore escancarado de produções mais ousadas.

A premissa, por si só, já entrega o tom: cinco bailarinas americanas, em viagem para uma apresentação internacional em Budapeste, acabam presas em uma região rural da Hungria após a quebra de seu ônibus. O abrigo surge na forma da misteriosa Estalagem Teremok, um edifício luxuoso com ares de castelo gótico, que rapidamente se revela um antro de criminosos. A partir daí, o filme abandona qualquer pretensão de realismo e mergulha de cabeça em uma narrativa de sobrevivência onde sapatilhas de balé dividem espaço com armas improvisadas e sangue em abundância.


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O elenco de Lindas e Letais é comprometido. Maddie Ziegler lidera o grupo como Bones, uma protagonista que oscila entre o carisma e a instabilidade, tornando-se o centro gravitacional da narrativa. Lana Condor, como Princess, começa como uma figura ligeiramente antipática, mas encontra redenção no ato final, onde finalmente demonstra sua força. Millicent Simmonds e Iris Apatow trazem leveza e certa ingenuidade à trama como as irmãs Chloe e Zoe, funcionando como contraponto emocional ao caos crescente. Já Avantika rouba diversas cenas como Grace, uma conservadora constantemente entorpecida que tenta, sem sucesso, manter seus valores intactos em meio ao delírio coletivo.

Imagem do filme 'Lindas e Letais'
'Lindas e Letais': Balé, sangue e um pouco de morte. Foto: © Prime Video


E então há Uma Thurman. Escalada como a excêntrica Devora Kasimer, dona da estalagem, sua presença carrega um peso simbólico inevitável, especialmente para quem a associa imediatamente ao arquétipo de vingança que marcou sua carreira. No entanto, é também aqui que reside uma das maiores frustrações do filme: apesar do potencial evidente, sua personagem jamais é inserida em uma sequência de ação propriamente dita. Em um filme que respira combate físico, essa ausência soa quase como uma provocação involuntária.

No campo da ação, Lindas e Letais encontra seu equilíbrio mais curioso. As coreografias alternam entre momentos surpreendentemente bem executados, dignos de produções contemporâneas mais refinadas, e sequências deliberadamente exageradas, que flertam com o cartoon. O ápice desse tom híbrido surge quando as bailarinas transformam seus próprios instrumentos de trabalho em armas: sapatilhas adaptadas com lâminas, martelos e tesouras compõem um arsenal improvisado que traduz perfeitamente a proposta estética do filme: absurda, violenta e, em muitos momentos, genuinamente divertida.


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O terror, por sua vez, se manifesta sobretudo através do gore. Há um evidente prazer em explorar sangue falso, mutilações e efeitos práticos que remetem diretamente ao subgênero popularizado por obras como O Albergue. Ainda que o uso de efeitos digitais seja perceptível, a maquiagem prática confere textura suficiente para sustentar a brutalidade visual. Complementando essa atmosfera, a trilha sonora aposta em sucessos dos anos 2000, uma escolha que, embora nem sempre dialogue com as imagens em tela, adiciona uma camada curiosamente nostálgica ao conjunto.

Uma Thurman como Devora Kasimer em 'Lindas e Letais'
Uma Thurman interpreta a vilã Devora Kasimer em 'Lindas e Letais'. Foto: © Prime Video


Se há um problema estrutural claro, ele reside na construção dos antagonistas. Os criminosos que habitam a Estalagem Teremok carecem de presença real. Apesar de algumas tentativas pontuais de estabelecer ameaça — uma cena de assassinato aqui, outra de tortura ali —, o roteiro de Kate Freund parece deliberadamente contê-los, como se houvesse um receio constante de ultrapassar certos limites. O resultado é uma sensação reduzida de perigo: nunca acreditamos plenamente que as protagonistas estejam em risco genuíno, o que enfraquece a tensão dramática.

Essa limitação se soma a outro aspecto inevitável: o filme exige uma suspensão de descrença quase contínua. A lógica interna frequentemente cede lugar ao espetáculo, e a coerência narrativa é sacrificada em prol de momentos visualmente impactantes. Para alguns, especialmente para quem abraça a estética grindhouse que o filme claramente tenta evocar, isso será parte do charme. Para outros, no entanto, será um obstáculo difícil de ignorar.

O desfecho, infelizmente, não consegue sustentar o que o filme promete. O confronto final, que deveria funcionar como clímax catártico, soa surpreendentemente morno, quase anticlimático, como se a narrativa perdesse fôlego justamente no momento em que mais precisava de intensidade. E, inevitavelmente, volta à mente a questão que paira desde a introdução da personagem de Devora: como um filme com esse perfil deixa Uma Thurman à margem da ação?

Imagem do filme 'Lindas e Letais'
Maddie Ziegler lidera o grupo de bailarinas em apuros em 'Lindas e Letais'. Foto: © Prime Video


Lindas e Letais é um entretenimento funcional. Diverte enquanto dura, oferece momentos pontuais de criatividade e entrega um espetáculo visual que pode agradar aos fãs de ação estilizada com tintas de horror. Mas sua incapacidade de aprofundar conflitos, construir vilões memoráveis e fechar a narrativa com impacto impede que vá além disso. É competente o suficiente para justificar o play, mas não marcante o bastante para permanecer na memória por muito tempo.


Nota: 5.5/10


Título Original: Lindas e Letais.

Título Nacional: Pretty Lethal.

Gênero: Ação, suspense, terror.

Produção: 2026.

Lançamento: 2026.

País: Reino Unido, Estados Unidos da América, Hungria.

Duração: 1 h 28 min.

Roteiro: Kate Freund.

Direção: Vicky Jewson.

Elenco: Maddie Ziegler, Lana Condor, Lydia Leonard, Avantika, Millicent Simmonds, Iris Apatow, Tamás Hagyó, Julian Krenn, Miklós Béres, Péter Végh, Adam Boncz, Krisztián Csákvári, Uma Thurman, Kate Freund, Tamás Szabó Sipos, Béla Orsányi, David Benko, Balázs Megyeri, Gary Cothenet, Teddy Masson, Gábor Nagypál, Michael Culkin, Klára Spilák.



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Ed Walter

Criador da 'Sangue Tipo B' e escritor na comunidade de filmes de terror desde 2017. Apaixonado por filmes de terror dos anos 70 e 80. Joga 'Skyrim' até hoje.

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