Crítica | Forbidden Fruits (2026)

Um paraíso de plástico, açúcar e ressentimento, e como é divertido morar nele por quase duas horas


Imagem do filme 'Forbidden Fruits'
Fig, Apple e Cherry são funcionárias de uma loja de roupas e aspirantes a bruxas nas horas vagas | Foto: © Forbidden fruits


Há filmes que parecem nascer prontos para o status de culto, e Forbidden Fruits definitivamente flerta com esse destino desde seus primeiros minutos. Parte sátira, parte fantasia sombria e parte comédia venenosa, o longa combina referências que vão de As Patricinhas de Beverly Hills a Jovens Bruxas, como se tivesse sido concebido em uma reunião criativa conduzida por Diablo Cody.

Ok, Diablo Cody realmente está envolvida na produção. Ainda assim, o que realmente se destaca aqui é a voz própria da diretora estreante Meredith Alloway e de sua corroteirista Lily Houghton, que também é responsável pela peça teatral “Of the woman came the beginning of sin and through her we all die”, que serve de base para o filme. Juntas, elas transformaram essa mistura em algo surpreendentemente coeso e deliciosamente ácido.


PUBLICIDADE


Lili Reinhart interpreta Apple, a líder magnética que comanda de salto alto e olhar calculado a hierarquia social de um shopping em Dallas. Ela e suas amigas Fig (Alexandra Shipp) e Cherry (Victoria Pedretti) são funcionárias da loja de roupas de alta classe Free Eden. O trio é conhecido como “As Frutas”, figuras quase mitológicas naquele microcosmo consumista onde status é medido por roupas, atitude e pela capacidade de transformar a praça de alimentação em um trono.

Lili Reinhart como Apple no filme 'Forbidden Fruits'
A elegante Apple lidera o coven da loja Free Eden | Foto: © Forbidden fruits


Todas as mulheres querem ser uma Fruta. Ser admitida em seu seleto grupo, porém, parece um sonho quase inalcançável, exceto talvez para Pumpkin (Lola Tung), a nova funcionária da loja de comidas Sister Salt, que costuma distribuir amostras grátis de pretzels saborosos pela praça de alimentação. A primeira a se entupir de pretzels é Fig. Pouco tempo depois, Pumpkin está cara a cara com Apple, que vê nela potencial para se tornar uma seguidora.

A chegada de Pumpkin funciona como o clássico convite ao paraíso, com todas as suas armadilhas embutidas. Ao ser acolhida pelo trio, ela descobre que o glamour vem acompanhado de rituais excêntricos, regras arbitrárias e uma espiritualidade tão estética quanto suspeita. Há doces coloridos, bebidas questionáveis, danças esguias e uma bota de cowboy que parece carregar mais simbolismo do que qualquer objeto deveria suportar. É nesse ponto que o filme começa a sugerir que, por trás de uma superfície brilhante, há algo mais sombrio fermentando.


PUBLICIDADE


O grande trunfo do roteiro é conseguir equilibrar crítica e entretenimento sem transformar um no refém do outro. Forbidden Fruits cutuca temas contemporâneos com precisão: identidade, trauma, pertencimento e, sobretudo, a contradição de um discurso progressista que frequentemente se entrelaça com as mesmas estruturas que pretende criticar. O resultado é uma obra que se posiciona como feminista, mas não hesita em satirizar o feminismo performático, aquele que vende empoderamento em vitrines bem iluminadas.

Imagem do filme 'Forbidden Fruits'
Cherry, Apple e Pumpkin estão prontas para mais um dia de trabalho | Foto: © Forbidden fruits


A direção de Alloway é segura e surpreendentemente confiante para uma estreia. Ela transita entre o drama e a comédia exagerada com naturalidade, mantendo um tom provocativo que nunca se torna pesado demais. Quando decide mergulhar no absurdo, o faz sem pedir desculpas: há ecos das comédias dos anos 90 nas cenas mais picantes, e um flerte descarado com o gore estilizado do terror B oitentista. Em certos momentos, a estética campy evoca A Bruxa do Amor, filme com o qual também compartilha um cuidado obsessivo com o visual.

O trabalho de figurino em Forbidden Fruits é, sem exagero, um espetáculo à parte. Cada peça do guarda-roupas das bruxas modernas com nomes de frutas parece contar uma história própria, reagindo ao humor e à posição de poder das personagens. As roupas não vestem apenas, elas performam, seduzem e, por vezes, intimidam. É um detalhe que reforça a ideia central do filme: naquele universo, aparência não é superficialidade, é linguagem.


PUBLICIDADE


O elenco opera em sintonia quase perfeita. Reinhart constrói uma Apple fascinante, movida por um ressentimento que se disfarça de liderança visionária. Shipp traz equilíbrio como a mente racional do grupo, constantemente dividida entre ambição pessoal e lealdade. Tung funciona como o elemento disruptivo: não exatamente uma tentação, mas uma dúvida persistente. E então temos Pedretti, simplesmente hilária no papel de Cherry.

Imagem do filme 'Forbidden Fruits'
Quando o expediente acaba, é hora da magia | Foto: © Forbidden fruits


Essa personagem não chama a atenção apenas pelo visual, mas também por conseguir unir ingenuidade e crueldade em proporções imprevisíveis. Um monólogo relevador no confessionário das Frutas — onde Apple afirma ser possível conversar com Marilyn Monroe — revela camadas interessantes de dor e trauma da personagem. E isso não impede que ela continue sendo a responsável pelos momentos mais engraçados do filme.

Se há algo que pode afastar parte do público, é a decisão consciente de deixar lacunas. O roteiro não se preocupa em amarrar todas as pontas, o que pode ser interpretado como escolha estética ou descuido, dependendo da disposição do espectador. Além disso, o terror propriamente dito demora a se manifestar, surgindo de forma mais explícita apenas na reta final.

Forbidden Fruits é um filme que sabe exatamente o tipo de experiência que quer oferecer, e não faz questão de agradar a todos. Seu humor ácido, seu exagero deliberado e sua crítica embalada em papel de plástico colorido podem não funcionar para quem busca algo mais convencional. Mas para quem entra no jogo, há muito o que saborear. É o tipo de obra que talvez não conquiste unanimidade, mas tem todos os ingredientes para se tornar cult — como um doce bonito demais para confiar, mas irresistível demais para recusar.


Nota: 7,8/10


Título Original: Forbidden Fruits.

Gênero: Comédia, terror.

Produção: 2026.

Lançamento: 2026.

País: Estados Unidos da América.

Duração: 1 h 43 min.

Roteiro: Lily Houghton, Meredith Alloway.

Direção: Meredith Alloway.

Elenco: Lili Reinhart, Victoria Pedretti, Alexandra Shipp, Lola Tung, Gabrielle Union, Jordan Duarte, Zack Thompson, Aidan Almanza.



RELACIONADOS: #Forbidden Fruits    #Lili Reinhart    #Victoria Pedretti    #Alexandra Shipp    #Lola Tung    #Meredith Alloway

Ed Walter

Criador da 'Sangue Tipo B' e escritor na comunidade de filmes de terror desde 2017. Apaixonado por filmes de terror dos anos 70 e 80. Joga 'Skyrim' até hoje.

Postar um comentário

Antes de serem publicados, os comentários serão revisados.

Postagem Anterior Próxima Postagem