Entre a ambição estética e o colapso narrativo, um clássico revisitado que parece não saber o que quer ser, nem para quem existe
A Noiva!, segundo longa-metragem da diretora Maggie Gyllenhaal após A Filha Perdida, revisita o mito de Frankenstein sob uma lente autoral, deslocando o foco para a figura feminina. Não é uma abordagem nova. A Prometida (1985), estrelado por Sting e Jennifer Beals, fez algo parecido. Também não é um bom filme. O que se vê em tela está menos para uma reinvenção ousada e mais para um experimento que se perde em suas próprias intenções. No processo, a obra parece esquecer de ser minimamente coesa.
O filme parte de um ponto que beira o delírio: após sua morte, Mary Shelley, a autora do livro Frankenstein, vagueia por uma espécie de limbo existencial, ressentida por não ter dito tudo o que gostaria em vida. A solução encontrada? Possuir o corpo de uma mulher chamada Ida, manipulando eventos para que ela morra, seja ressuscitada e, assim, encarne a icônica Noiva de Frankenstein. Ou melhor, apenas "A Noiva", como ela gosta de ser chamada.
A premissa, por si só, já exigiria uma execução particularmente refinada para funcionar, algo que o roteiro claramente não entrega. Ao invés disso, temos uma sucessão de eventos que parecem desconectados entre si, como se o filme estivesse constantemente improvisando sua própria lógica interna. O que vem a seguir pode ser descrito como um híbrido mal-costurado entre o enfadonho Coringa: Delírio a Dois (2024) e o clássico Bonnie e Clyde - Uma Rajada de Balas (1967), com os dois monstros sendo perseguidos pela polícia e provocando uma mudança social radical na cidade.
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| A Noiva está nervosa! E está armada! | © 2024 Warner Bros. Entertainment Inc. All rights reserved. |
Mesmo quando tenta estabelecer um eixo dramático, especialmente na relação entre a Noiva e o monstro interpretado por Christian Bale, o filme tropeça em decisões que esvaziam qualquer possibilidade de envolvimento emocional. A dinâmica do casal nunca se sustenta; os conflitos surgem de maneira arbitrária e o desenvolvimento dos personagens soa mais como um esboço do que como uma construção narrativa sólida. Em vez de tragédia, há uma sensação constante de desorientação.
O problema central reside no roteiro, que parece operar como uma espécie de checklist de tendências contemporâneas, inseridas sem o devido desenvolvimento dramático. Temas e discursos modernos surgem de forma insistente, mas raramente orgânica, criando a impressão de que o filme está mais interessado em sinalizar intenções do que em contar uma história. Essa abordagem acaba sufocando qualquer senso de entretenimento, substituído por uma narrativa que alterna entre o didatismo e o caos.
As atuações, surpreendentemente, também não ajudam. Jessie Buckley e Christian Bale são intérpretes reconhecidos por extrair nuances mesmo de materiais frágeis, mas aqui parecem à deriva, presos a diálogos artificiais e a personagens pouco definidos. Não há química, não há intensidade; há apenas performances que soam mecânicas, como se nem mesmo o elenco estivesse plenamente convencido do que está sendo contado.
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| Frank e a Noiva caminham pelas ruas da Chicago dos anos 1930 | © 2024 Warner Bros. Entertainment Inc. All rights reserved. |
No que diz respeito ao monstro de Frankenstein, o filme opta por uma abordagem que tenta subverter expectativas, mas acaba esbarrando em um retrato excessivamente passivo da criatura. Após versões recentes que já buscavam humanizá-lo, como a de Guillermo del Toro, esta encarnação leva essa ideia a um extremo que compromete sua presença dramática. É um personagem que dificilmente impõe qualquer sensação de ameaça ou fascínio.
Enquanto isso, a personagem da Noiva segue o caminho oposto: empoderada e caótica, mas, como a maioria das personagens femininas escritas nos últimos anos, também dolorosamente desagradável. Para completar a lista de armadilhas contemporâneas em que o roteiro arma e alegremente insiste em cair, só faltava mesmo sacrificar o resto da credibilidade narrativa ao retratar todos os homens como idiotas. E, acredite, o roteiro faz isso em tempo integral.
A direção de Gyllenhaal, por sua vez, carece de pulso. Não há tensão, não há atmosfera, e o ritmo é prejudicado por uma montagem irregular que, em diversos momentos, parece incapaz de conectar as próprias cenas. O filme avança de maneira errática, alternando entre sequências que se arrastam e outras que simplesmente não encontram propósito claro. O efeito acumulado é de apatia — uma experiência que, mais do que provocar reflexão ou incômodo, convida ao cansaço.
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| Eita! A Noiva ficou brava de novo! | © 2024 Warner Bros. Entertainment Inc. All rights reserved. |
É curioso notar que, tecnicamente, há méritos pontuais. A recriação da Chicago dos anos 1930 é convincente, com direção de arte cuidadosa e uma ambientação que sugere um filme melhor do que aquele que efetivamente se desenrola. Os efeitos práticos, especialmente na maquiagem do monstro, também demonstram um zelo artesanal que merece reconhecimento, ainda que esse capricho visual não encontre respaldo em um conteúdo à altura.
A Noiva! se apresenta como um projeto ambicioso que naufraga na execução. Há ideias, há estética e há um elenco de peso, mas nada disso converge para um resultado minimamente satisfatório. Em vez de uma releitura relevante de um clássico, o que se tem é uma obra que parece constantemente em desacordo consigo mesma. Nesse conflito interno, acaba se consolidando menos como um filme provocativo e mais como uma experiência frustrante.
Nota: 2/10
Título Original: The Bride!
Título Nacional: A Noiva!
Gênero: Drama, romance, terror, comédia.
Produção: 2026.
Lançamento: 2026.
País: França, Estados Unidos da América.
Duração: 2 h 6 min.
Roteiro: Maggie Gyllenhaal.
Direção: Maggie Gyllenhaal.
Elenco: Jessie Buckley, Christian Bale, Annette Bening, Penélope Cruz, Peter Sarsgaard, Jake Gyllenhaal, John Magaro, Matthew Maher, Jeannie Berlin, Zlatko Buric, Louis Cancelmi, Julianne Hough, Massiel Mordan.
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