Brad Caleb Kane diz que série está se afastando de termos usados para descrever Jason criança e promete uma abordagem “mais realista e atualizada”
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| 'Crystal Lake' | Foto: Peacock |
A série Crystal Lake está prestes a chegar ao streaming Peacock, e, como fã de Sexta-Feira 13, minhas expectativas estavam bastante altas. Estavam, porque uma declaração recente de Brad Caleb Kane, produtor executivo e showrunner da série, fez algumas luzes de alerta começarem a piscar.
Talvez seja apenas o meu lado teórico da conspiração falando depois de tantas decepções com novas versões de obras antigas. Mas, convenhamos: certas frases não ajudam muito a acalmar os ânimos.
Em entrevista à Entertainment Weekly, Kane elogiou o trabalho de maquiagem de Tom Savini no primeiro Sexta-Feira 13, de 1980, que serve como uma das principais referências para os acontecimentos abordados pela série. E não há absolutamente nada a discutir aqui. Savini realmente fez história ao criar a aparência do pequeno Jason Voorhees, transformando uma breve aparição em uma das imagens mais perturbadoras da franquia.
“Savini arrasou”, afirmou Kane. Segundo o produtor, o maquiador “mergulhou direto em nossas mentes e trouxe à tona nossos piores pesadelos sobre a aparência de uma criança deformada”. Até aí, perfeito. É difícil imaginar um fã de terror discordando dessa avaliação. O problema aparece na frase seguinte.
Kane explicou que Crystal Lake pretende seguir uma abordagem diferente: “Estamos tentando fazer algo um pouco mais realista e atualizado. Estamos nos afastando de palavras como ‘aberração’ e usando mais termos como ‘excluído’ e ‘diferente’”. É justamente aí que o sinal de alerta começa a piscar.
É perfeitamente possível interpretar a declaração de maneira inocente. Afinal, a série se passa décadas antes de Sexta-Feira 13 e pretende expandir a história de Pamela Voorhees e de seu filho. Atualizar a linguagem utilizada pelos personagens não significa necessariamente alterar a essência do personagem ou transformar a série em uma espécie de sermão contemporâneo ambientado por engano nos anos 1970.
Mas quem acompanha o cinema de terror e, principalmente, as inúmeras tentativas recentes de revisitar propriedades antigas, sabe que determinadas palavras costumam provocar um déjà-vu. “Mais realista”, “atualizado”, “reimaginar”, “ressignificar”... nada disso é automaticamente ruim, desde que a atualização não passe a ser mais importante do que aquilo que tornou a obra original interessante em primeiro lugar.
Sexta-Feira 13 não é exatamente uma franquia que precisa de muita explicação para funcionar. O pequeno Jason visto no primeiro filme é uma figura trágica e grotesca justamente porque a narrativa original não tenta transformar sua história em uma grande tese sobre inclusão, exclusão ou aceitação. Ele é uma criança que morreu afogada, tornou-se o centro do trauma de sua mãe e, décadas depois, ajudou a criar uma das mitologias mais conhecidas do cinema de terror.
Isso não significa que Crystal Lake não possa aprofundar o personagem. Pelo contrário, a proposta de explorar Pamela Voorhees antes dos acontecimentos do filme de 1980 é uma das partes mais interessantes da série. O que será realmente importante é descobrir como essa expansão será feita.
A série acompanhará Pam Voorhees, uma mãe solteira incapaz de superar a morte de seu filho pequeno e doente, Jason, que se afogou tragicamente no acampamento de verão Crystal Lake, quase um ano antes. Quando dois estranhos aparecem à sua porta investigando seu passado, uma sequência perturbadora de acontecimentos começa a revelar segredos sobre a mulher que os moradores da cidade acreditavam conhecer.
Há espaço para transformar Pamela em uma personagem mais complexa sem necessariamente reescrever aquilo que já sabemos sobre ela. Há também a possibilidade de explorar a infância de Jason, o trauma da família Voorhees e a própria história de Crystal Lake sem transformar tudo em uma atualização conceitual da franquia.
Talvez o alerta seja prematuro. Talvez Kane esteja simplesmente tentando dizer que Crystal Lake pretende tratar Jason com mais humanidade e evitar termos que seriam considerados inadequados hoje. Isso não seria necessariamente um problema, mas eu realmente estou preocupado sobre até onde essa proposta vai.
Uma coisa é contextualizar uma história ambientada nos anos 1970. Outra, bem diferente, é pegar uma franquia criada em outra época e fazer com que ela pareça ter sido escrita ontem.
Por enquanto, fica o benefício da dúvida. Afinal, ainda estamos falando de uma série ambientada no universo de camp slasher mais famoso do cinema, produzida pela A24 e comandada por Brad Caleb Kane. Talvez todas essas preocupações desapareçam depois dos primeiros episódios. Mas só vamos saber a partir do dia 15 de outubro, quando Crystal Lake estreia no Peacock.
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“Mais realista”, “atualizado”, “reimaginar”, “ressignificar”... realmente, quando usam esses termos e gatilhos é para embalar a "problematização" de um fato "x" em um discurso ideológico moralizante. Assim, transforma-se a obra apenas em um discurso panfletário que acaba se distanciando de sua essência e propósito.
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