Crítica | November (2018)

Conto sombrio do diretor Rainer Sarnet é um mergulho inesquecível no folclore rural da Estônia

Imagem do filme 'November'

Por Ed Walter

Logo nos primeiros minutos, uma criatura feita de um amontoado de varetas, palha, ferramentas agrícolas e pedaços de animais mortos se move ameaçadoramente nos arredores de uma fazenda. E se sua simples visão não for suficiente para que você se pergunte "o que está acontecendo aqui?!?", os eventos que se seguem com certeza cuidarão disso. A estranheza é algo comum em November, conto de magia, romance e humor-negro que adapta o livro de Andrus Kivirähk e que mergulha profundamente no delicioso folclore rural da Estônia.

A criatura em questão é chamada de kratt, e ela é apenas uma das bizarrices que ronda uma aldeia pagã do século 19, onde a história se desenvolve. Aqui, homens e mulheres que se transformam em lobos nas noites de Lua-cheia passeiam tranquilamente entre os aldeões. Espíritos também, e eles inclusive têm permissão de voltar para casa para visitar seus entes queridos uma vez por ano. A peste caminha pelas estradas na forma de uma bela mulher em busca de um beijo. E é possível até mesmo invocar o demônio em uma encruzilhada.

Imagem do filme 'November'

O roteiro esperto do também diretor Rainer Sarnet introduz esses elementos fantásticos na tela de forma natural. E sem que percebamos, todas as regras desse mundo passam a fazer sentido. Mas embora o sobrenatural seja presença constante, é nos personagens que o filme encontra seu ponto mais forte. O elenco de apoio formado em grande parte por atores não profissionais cria figuras únicas que chamam a atenção não apenas por seus comportamentos bizarros mas também por sua aparência marcada pela sujeira e por expressões que são um misto de malandragem, cansaço e desconfiança.

Em sua luta para sobreviver ao frio que castiga a região, os aldeões se tornaram figuras gananciosas para as quais nada é tabu. Eles roubam um do outro. Roubam do barão que reside na mansão próxima. Também roubam dos espíritos, roubam do demônio e até de Cristo. Nesse mundo, a única coisa que não pode ser roubada nem por um homem nem por um kratt é o amor. E é justamente esse sentimento que move a personagem principal: a jovem e adorável Liina, interpretada pela atriz Rea Lest.

Imagem do filme 'November'

Liina está prometida em casamento a Endel (Sepa Tom), um homem repugnante mas dono de muitas posses. Nossa heroína nutre um amor secreto pelo camponês Hans (Jörgen Liik), que por sua vez está perdidamente apaixonado pela filha do barão (Jette Loona Hermanis). As consequências dessa história serão trágicas para todos os envolvidos.

Enquanto a magnífica fotografia, às vezes em tons de cinza, às vezes em um contrastante preto e branco, dá ao filme a atmosfera onírica necessária para manter a história sempre fascinante, a bela trilha sonora trabalha em intencional desarmonia, garantindo uma sensação de desconforto constante. Os opostos, aliás, caminham sempre de mãos dadas. Bem e mal, realidade e fantasia, beleza e feiura. Às vezes o filme é incrivelmente triste e poético. Às vezes é hilário.

Imagem do filme 'November'

É claro que com todas as suas insanidades, November tem uma boa chance de se tornar um daqueles filmes que polarizam opiniões. Será amado por muitos, odiado por outros. Já vi relatos de pessoas que pararam se assistir por não entender exatamente o que estavam vendo. Ou que se sentiram incomodados diante de tanta estranheza.

Eu? Bem, minha única reclamação quanto ao filme é que seus 115 minutos passaram voando e eu já estou com saudades de tudo que vi. O jeito vai ser procurar pelo livro. Porque eu, definitivamente, quero passar mais algumas horas nesse universo fantástico.

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O melhor: Tudo, da cena de abertura até os letreiros finais.
O pior: Queria que o filme tivesse umas 4 horas.
Quando a praga chegar: Lembre-se de vestir a calça na cabeça.

Título original: November.
Gênero: Drama, fantasia, terror.
Produção: 2017.
Lançamento: 2018.
País: Estônia, Países Baixos, Polônia.
Duração: 115 minutos.
Roteiro: Rainer Sarnet.
Direção: Rainer Sarnet.
Elenco: Rea Lest, Jörgen Liik, Arvo Kukumägi, Katariina Unt, Taavi Eelmaa, Heino Kalm, Meelis Rämmeld, Dieter Laser, Jette Loona Hermanis, Jaan Tooming, Klara Eighorn.

3 comentários:

  1. "Primordial.Brilhando divinamente em todas as formas e sentimentos". Este filme o define por ele mesmo por completo.Vindo da distante Estonia surpreendeu a todos e ganhou varios premios.Inclusive e merecidamente o de melhor fotografia,esta sim,é também impecável.Um triangulo amoroso e muitas vezes incompreensível,mas ao mesmo tempo apaixonante.Fábulas e terror se misturam e torna-o ainda mais atraente.Atores e atrizes poucos conhecidos,mas que cativam a cada segundo.Poucas vezes o cinema produziu e trouxe algo assim e que merece ser vista várias vezes. No meio de todo este espetáculo o que vale acima de tudo é o verdadeiro amor.A fotografia em preto e branco cativa ainda mais e torna-o inesquecível,retrato da tradição e do folclore do país longincuo,retratada neste obra de arte...e por que não dizer uma obra uma obra prima,a qual corresponde melhor a sua definição.Somente para os verdadeiros amantes tradicionais do cinema e que sabem compreende-lo de forma simples e valiosa como uma pérola.Direção,roteiro,adaptação,atores e atrizes,enfim tudo se encaixa perfeitamente,num ritmo não lento,sem pressa e sim,é claro, muito envolvente de rara beleza e carismático.

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  2. Geralmente não é do meu feitio indicar filmes,mas neste resolvi arriscar: Trata-se do filme Ida do diretor e roteirista Pawel Pawlikowski. Uma noviça,que vai de encontro aos fragmentos da 2° Guerra Mundial, ao sair do convento onde cresceu.Também em preto e branco,de grande aceitação e muito premiado.Somente para cinéfilos arduos e de muito bom gosto.Acompanha musica pianistica e jazz.Tudo funciona com calma e com serenidade,mas também perfeitamente.Não espere ver efeitos especiais hollywoodianos e ou muita ação,longe disto.Uma atriz concentrada em seu trabalho e muito talento e que emociona.A atuação de Agata Trzebuchowska,é invejável e de um efeito gigantesco, raramente visto na grande tela.Fotografia impecável e locações belíssimas,mas sem exageros.Final não esperado e que chega a surpreender,apesar de simples.Luz,sombra e camera caminhando em igualdade de valores.Profundo,penetra em nosso íntimo e de muita sensibilidade.Faz a gente pensar e refletir.Bye, bye Hollywood.

    Ida (Polônia, Dinamarca, França, Reino Unido, 2013)
    Direção: Pawel Pawlikowski
    Roteiro: Pawel Pawlikowski, Rebecca Lenkiewicz
    Elenco: Agata Kulesza, Agata Trzebuchowska, Dawid Ogrodnik, Jerzy Trela, Adam Szyszkowski, Halina Skoczynska, Joanna Kulig, Dorota Kuduk, Natalia Lagiewczyk, Afrodyta Weselak, Mariusz Jakus, Izabela Dabrowska, Artur Janusiak
    Duração: 82 min.

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  3. Alguém já teve a oportunidade de se presentear ?! Eu sim,e duas vezes! Esta aqui é a segunda.Para quem esta decepcionado com Hollywood e suas produções milhonárias, mas quase sem conteúdo, quando não sem, vai aqui mais uma dica,um colírio para os olhos e remédio do céu. Apostei novamente no diretor e roteirista Pawel Pawlikowsk.Sim,o mesmo de Ida.Zimna Wojna – Cold War – Guerra Fria. E não sai decepcionado.Claro que assisti e pretendo rever novamente,com muito prazer! Eu vou dizer o porque:Belísssimo, seja pelo seu texto, pela fotografia, pelo clima que vivem os personagens,pesado e denso e ao mesmo tempo romântico.Tudo funciona harmoniosamente bem.Wiktor (Tomasz Kot) e Zula (Joanna Kulig) vivem um amor proibido,porém sem demonstrarem término na relação entre o casal. Mesmo que seja necessário esperar anos. Um Endless Love moderno.Sim Camera,direção, tudo encaixa maravilhosamente. O filme é dividido em quadros.Não se tem muita explicação,mas da para entender perfeitamente o passo a passo da história,do contexto. O grupo de dança é impecável e mostra o folclore da Polonia,um resgate inestimável do valor cultural do país e com um figurino belíssimo,fiquei encantado e olha que poucos filmes me deixam assim,para dizer a verdade raramente. Uma pérola,e Joanna Kulig está divina nesta produção e se sai muito bem com a sua personagem,pela beleza ou pelo seu enorme talento cenico.Tomasz Kot também não deixa por menos.Tudo junto e misturado então....o par perfeito apesar das diferenças. O filme é também em preto e branco,o que não o desvaloriza de forma alguma,pelo contrário, só soma pontos e adjetivos.Tem a musica pianistica, a cultura da Polonia, além de muito mais.Tudo de muito bom gosto e apurado. O que não posso esquecer de comentar é que só de ver o charme ,a beleza e a disposição da protagonista principal dançando já vale o filme. Trilha sonora nota 10 e com tudo haver.Uma viagem pelo mundo e suas diferentes culturas e um romance cheio de reviravoltas. Não é uma paixão avassaladora que vivem os personagens. É um sentimento controlável,puro e chega a impressionar.Ganhou vários prêmios (21)e foi indicado a outros ( 54).Baseado numa história de vida real,nos criadores, do mundialmente famoso grupo de dança folclórica polonesa Zespól Piesni i Tanca Mazowsze e o diretor e roteirista Pawel Pawlikowski dedica o filme aos pais dele.Os pais de Pawlikowski se separaram e voltaram a se unir várias vezes, inclusive mudando de países em diversas ocasiões,a mesma situação das personagens principais da trama. Foi indicado ao Oscar 2019 na categoria Melhor Filme de Língua Estrangeira e a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood optou em dar a estatueta para Roma,este último nada tenho a comentar até pelo motivo de ainda não ter tido a chance de assisti-lo.Então não quero aqui falar bobagens e coisas desconexas sem nenhum fundamento.Respeito a opinião da Academia,porém que Cold War foi um forte concorrente foi e bem que merecia ter ganhado,até então.Das duas uma: Ou a Academia não entende nada de filme ou não entende nada de dança....ou ainda como terceira opção não entenda nada das duas.Joanna Kulig dançando Bill Haley & His Comets “Rock Around the Clock” vcs querem o que mais?!?! Sai pra lá colega.....

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