Leelee Sobieski estrela essa modernização sexy, mas desastrosa, da obra clássica de Henry James
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Anna Veigh acredita que está trabalhando em uma mansão assombrada no filme 'Lugares Escuros' |
Lugares Escuros é uma modernização um tanto solta de A Volta do Parafuso, de Henry James, livro que já foi adaptado várias vezes para o cinema. A versão mais famosa é Os Inocentes (1961), de Jack Clayton, estrelado por Deborah Kerr. A mais recente é Os Órfãos, de Floria Sigismondi (2020), em que Mackenzie Davis assume o papel principal.
Esta versão de 2006 é dirigida pelo estreante Donato Rotunno, mais conhecido como produtor de filmes como Nós Duas e Brutalidade Sem Limites. O roteiro é assinado por Peter Waddington, também responsável pelo thriller Sr. Morte. Lugares Escuros é um daqueles filmes que até começam despertando uma certa expectativa, mas que rapidamente se perdem em um labirinto de indecisões criativas.
Leelee Sobieski (A Casa de Vidro) interpreta Anna Veigh, uma jovem com dificuldades em entender a diferença entre professora de arte e arteterapeuta. Nós a conhecemos em uma sala de aula de uma escola primária, recolhendo cacos de vidro do chão e lambendo o dedo, embora não fique claro se a substância é tinta vermelha ou sangue. Pouco tempo depois, o diretor do colégio, um sujeito de fala mansa e mãos ligeiras, a chama para seu escritório e informa sobre sua demissão.
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Leelee Sobieski Anna no filme 'Lugares Escuros' |
Felizmente, o período de inatividade de Anna é bem curto, pois o próprio diretor (Thomas Sanne, de Os Caçadores) entra em contato no dia seguinte para pedir que ela guarde o que chama de "segredinho", e assegurar que conseguiu para ela um novo trabalho: ser babá de Flora e Miles, crianças órfãs que vivem em uma enorme mansão isolada.
Tirando o fato que os irmãos interpretados pelos estreantes Christian Olson e Gabrielle Adam são um pouco estranhos, a estadia na mansão parece agradável. Mas, quando Anna começa a ver gente morta passeando do lado de fora da casa, surge a dúvida: ela está enlouquecendo ou a propriedade é, de fato, assombrada?
O longa tenta resgatar a aura ambígua e inquietante da obra original, e durante sua metade inicial consegue algo próximo disso. A ambientação gótica, os silêncios carregados de sugestão e o jogo psicológico entre personagens chegam a criar a sensação de que o espectador pode estar diante de uma adaptação respeitosa, ainda que modesta, de uma das histórias de fantasmas mais celebradas da literatura.
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Tara Fitzgerald e Leelee Sobieski interpretam Miss Grose e Anna no filme 'Lugares Escuros' |
Grande parte desse mérito inicial recai sobre a química entre Sobieski e Tara Fitzgerald (Sereias), que interpreta a gerente da propriedade. Há uma tensão latente entre as duas, um misto de cumplicidade e desconfiança, que sustenta bem a atmosfera de mistério proposta pela narrativa. O espectador não sabe ao certo em quem confiar, nem de onde parte o real perigo: se da mansão, das crianças ou da própria mente da babá.
Na metade final, o castelo de cartas desmorona. Rotunno e Waddington parecem não ter ideia clara do que desejam contar. Lugares Escuros ora tenta ser thriller erótico, ora romance queer, ora narrativa de fantasmas, ora reflexão sobre traumas e saúde mental. Nunca consegue se comprometer integralmente com nenhum desses caminhos.
Essa indecisão não apenas confunde como também desestrutura completamente a trama, deixando o espectador sem ponto de apoio e sem interesse em seguir adiante. O ato final carece de ritmo e unidade estética. As cenas que deveriam ser tensas escorregam para o ridículo. O resultado são situações que soam improvisadas, como se cada nova sequência fosse uma tentativa desesperada de colar gêneros distintos sem a menor coesão.
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Gabrielle Adam e Leelee Sobieski como Flora e Anna no filme 'Lugares Escuros' |
A trilha sonora, em vez de ajudar, sabota ainda mais a experiência. Com escolhas equivocadas, que oscilam entre o genérico e o intrusivo, a música jamais acompanha a atmosfera que o filme finge querer criar. Há momentos em que parece deslocada, como se tivesse sido inserida sem qualquer cuidado com o tom da cena, o que só aumenta a sensação de amadorismo.
A montagem e a edição conseguem ser ainda piores. Cortes abruptos, transições mal planejadas e uma cadência desajeitada fazem com que o filme se arraste e, ao mesmo tempo, se perca em sua própria desorganização. A experiência é desconfortável não pela tensão esperada de uma boa história de terror psicológico, mas pela completa incapacidade técnica de manter a narrativa coesa. É como assistir a um quebra-cabeça montado com peças de diferentes jogos, sem que nenhuma se encaixe de fato.
A beleza de Leelee Sobieski se destaca em meio ao caos criativo e técnico do ato final. No entanto, por mais que seja agradável vê-la desfilando em lindos roupões que não fecham, isso não é suficiente para salvar um filme que, após um início promissor, afunda irremediavelmente em um mar de confusão.
Nota: 4/10
Título Original: In a Dark Place.
Título Nacional: Lugares Escuros.
Gênero: Drama, suspense, terror.
Produção: 2006.
Lançamento: 2006.
País: Luxemburgo, Reino Unido.
Duração: 1 h 35 min.
Roteiro: Peter Waddington.
Direção: Donato Rotunno.
Elenco: Leelee Sobieski, Tara Fitzgerald, Christian Olson, Gabrielle Adam, Graham Pountney, Chris Bearne, Jonathan Fox, Thomas Sanne, Patrick Dechesne, Gintare Parulyte, Cleo Rotunno, Julian Nest.
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