Crítica | Patrulha Noturna (Night Patrol, 2025)

Quando a metáfora morde mais forte que os vampiros


Jermaine Fowler como Wazi no filme 'Patrulha Noturna'
'Patrulha Noturna': Wazi testemunhou um assassinato e agora está em perigo


Patrulha Noturna, o novo filme de Ryan Prows, chega carregando referências de peso, de Os Garotos Perdidos a Quando Chega a Escuridão, passando por tentativas mais recentes como Vampiros X The Bronx e Negra Como a Noite. No papel, é uma mistura potente. Na prática, é mais indicativo de que 2020 vem acumulando tropeços consideráveis dentro do gênero, enquanto caminha para se consolidar como a pior década da história do cinema de terror.

A premissa, convenhamos, é forte. Após presenciar o assassinato brutal da namorada, o jovem Wazi, interpretado por RJ Cyler, passa a ser caçado por uma unidade policial conhecida como Patrulha Noturna. O detalhe: esses “policiais” são vampiros que se alimentam do sangue de cidadãos negros. É uma ideia que carrega potencial alegórico evidente e poderia render um terror urbano tenso, paranoico e socialmente relevante sem precisar gritar suas intenções a cada cinco minutos.


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E, para ser justo, há um momento em que o filme quase chega lá. Após um primeiro ato desnecessariamente confuso, a narrativa encontra algum equilíbrio por volta da meia hora. Os mistérios começam a se organizar, certas reviravoltas adicionam camadas interessantes e o espectador finalmente tem algo em que se agarrar. Soma-se a isso o uso competente de efeitos práticos, com direito a sangue falso em abundância e alguns desmembramentos bem executados, e temos vislumbres de um filme que poderia ter funcionado.

Justin Long como Ethan no filme 'Patrulha Noturna'
O policial Ethan é o mais novo integrante da Patrulha Noturna


O problema é que Ryan Prows e seus co-roteiristas parecem não confiar no subtexto. O que antes era sugerido com alguma eficiência passa a ser martelado em diálogos expositivos que soam menos como conversas e mais como discursos políticos. É nesse ponto que o filme deixa de ser uma história sobre sobrevivência em meio a uma ameaça sobrenatural e se transforma em uma experiência didática cansativa. A quebra de imersão é imediata, e difícil de contornar.

Não ajuda o fato de que boa parte desses discursos sai da boca de personagens difíceis de suportar. Entre um líder de gangue que parece mais interessado em palestrar do que agir e uma figura extremista cujas atitudes violentas contradizem qualquer tentativa de empatia, o filme constrói um elenco que afasta o espectador em vez de envolvê-lo. Em certos momentos, especialmente em cenas de diálogo mais longas, o elenco deixa transparecer um constrangimento palpável.


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Na metade final, a estrutura narrativa praticamente desmorona. O que deveria ser uma escalada de tensão vira uma sequência desordenada de eventos, com um Justin Long completamente perdido, correndo de um lado para o outro enquanto levanta mais dúvidas do que entusiasmo, principalmente sobre suas escolhas de carreira. Enquanto isso, os supostos protagonistas continuam presos em ciclos de explicação, repetição temática e desrespeito com a inteligência do público, drenando qualquer senso de urgência.

Justin Long e CM Punk no filme 'Patrulha Noturna'
A Patrulha Noturna guarda um segredo sombrio


O clímax, com Wazi adotando uma estética quase mítica, armado com uma lança brilhante e ostentando um anel que o faz lembrar uma versão alternativa do Lanterna Verde, beira o ridículo completo. É o tipo de cena que, em outro contexto, poderia ser celebrada como ousadia estilística; aqui, soa mais como um último suspiro de descontrole criativo.

Há ainda a questão do folclore. Ao tentar reinterpretar o Obayifo, uma entidade rica e perturbadora da tradição Ashanti, o filme opta pelo caminho mais fácil: transformá-lo em mais um vampiro genérico. É uma simplificação que não apenas desperdiça o potencial cultural da criatura, mas também reforça a sensação de que Patrulha Noturna sempre escolhe a rota menos interessante.

As comparações do trabalho de Ryan Prows com o de mestres do terror como Romero, Craven e Carpenter (acreditem, essas comparações existem) não se sustentam. Esses cineastas entendiam que o terror pode — e deve — dialogar com questões sociais, mas sem abrir mão do envolvimento e do entretenimento. Patrulha Noturna parece esquecer disso no meio do caminho. O resultado é um filme que tinha algo a dizer, mas escolheu a pior forma possível para fazê-lo.


Nota: 3/10


Título Original: Night Patrol.

Título Nacional: Patrulha Noturna.

Gênero: Terror, mistério, suspense.

Produção: 2025.

Lançamento: 2026.

País: Estados Unidos da América, Reino Unido.

Duração: 1 h 43 min.

Roteiro: Shaye Ogbonna, Ryan Prows, Tim Cairo, Jake Gibson.

Direção: Ryan Prows.

Elenco: Jermaine Fowler, Justin Long, Freddie Gibbs, RJ Cyler, YG, Nicki Micheaux, Flying Lotus, CM Punk, Dermot Mulroney, Jon Oswald, Nick Gillie, Zuri Reed, Mike Ferguson, Colin Young.



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Ed Walter

Criador da 'Sangue Tipo B' e escritor na comunidade de filmes de terror desde 2017. Apaixonado por filmes de terror dos anos 70 e 80. Joga 'Skyrim' até hoje.

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