Entre o medo e o desejo: o que o terror sempre entendeu sobre a beleza feminina (e a gente finge que esqueceu)

O terror sempre soube misturar medo e desejo, talvez melhor do que gostaríamos de admitir


Imagem do artigo 'Entre o medo e o desejo'
Cassidy (Briana Evigan) em 'Pacto Secreto', Terry (Kirsten Baker) em 'Sexta-Feira 13 - Parte 2', Erin (Jessica Biel) no remake de 'O Massacre da Serra Elétrica', e Bree (Julianna Guill) no remake de 'Sexta-Feira 13'


Há algo de curiosamente honesto no cinema de terror. Enquanto outros gêneros se esforçam para parecer sofisticados, polidos ou moralmente alinhados ao seu tempo, o horror costuma operar em um nível mais primitivo, quase instintivo. Ele fala de medo, claro, mas também fala de desejo. E, com frequência, das duas coisas ao mesmo tempo.

Não é coincidência que a discussão sobre a chamada Teoria do Male Gaze, popularizada por Laura Mulvey, encontre no terror um campo fértil. Diferente de outros gêneros que tentam disfarçar ou suavizar o olhar do espectador, o horror historicamente o escancara. Ele não apenas reconhece que existe um olhar — ele brinca com ele, distorce-o, pune-o e, em muitos casos, transforma-o em parte da própria experiência.


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Voltar aos clássicos ajuda a entender isso com mais clareza. Em Halloween, a câmera observa, espreita e assume o ponto de vista do predador, mas também o do espectador. Em Sexta-Feira 13, corpos jovens são exibidos com uma naturalidade quase despreocupada, até que deixam de estar seguros. Já em A Hora do Pesadelo, o erotismo aparece de forma mais onírica, quase simbólica, misturando vulnerabilidade e fascínio em doses difíceis de separar.

O que esses filmes entendiam, e que muitas discussões contemporâneas parecem evitar, é que a beleza feminina no terror nunca foi apenas decoração. Ela é linguagem. É contraste. É vulnerabilidade exposta, mas também poder latente. A chamada final girl, por exemplo, frequentemente começa como objeto de observação e termina como sujeito da narrativa. O olhar que a enquadrava é, eventualmente, confrontado por ela.


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Isso não significa que o gênero seja inocente ou isento de crítica. Muito pelo contrário. O terror sempre flertou com a exploração, o exagero e a fetichização. Mas talvez seja justamente essa falta de pudor que o torna mais interessante de analisar. Ele não tenta esconder suas contradições; ele as projeta na tela.

Nos últimos anos, parte do cinema de horror parece ter optado por um caminho mais consciente, por vezes até mais contido. A beleza feminina passou a ser frequentemente filtrada por uma preocupação em não parecer “problemática”. O resultado, em alguns casos, é uma estética mais neutra, menos provocativa e, paradoxalmente, menos memorável.

Isso levanta uma questão incômoda: ao tentar corrigir excessos do passado, o terror não estaria também abrindo mão de uma de suas ferramentas mais eficazes? Afinal, o desconforto, seja ele causado pelo medo ou pelo desejo, sempre foi uma das engrenagens centrais do gênero.

Talvez a resposta não esteja em rejeitar novas abordagens, mas em reconhecer que o olhar masculino, assim como qualquer outro, faz parte da história do cinema. Ignorá-lo não o elimina, apenas empobrece a conversa. E o terror, quando está em sua melhor forma, nunca foi um gênero interessado em simplificar as coisas.

O que o horror parece nos lembrar, repetidamente, é que aquilo que nos atrai também pode nos ameaçar. Encarar essa dualidade de frente, sem fingir que ela não existe, pode ser muito mais interessante do que tentar domesticá-la.

Ed Walter

Criador da 'Sangue Tipo B' e escritor na comunidade de filmes de terror desde 2017. Apaixonado por filmes de terror dos anos 70 e 80. Joga 'Skyrim' até hoje.

1 Comentários

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  1. A teoria do Male Gaze é danosa porque o horror opera com o desconforto como matéria-prima. Quando você filtra a beleza feminina por uma lente woke, você perde potência. Hoje, boa parte do horror mainstream (especialmente os com narrativa woke) apresenta resultado menos memorável, como foi dito. O horror sempre funcionou melhor quando abraça o incômodo em todas as suas formas. O paradoxo é: em nome de “corrigir excessos do passado”, criou-se um novo excesso — o puritanismo progressista que achata a provocação. Quando a ideologia substitui a busca pela potência estética, a arte fica mais fraca.













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