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Crítica | Vingança (Revenge, 2017)

Um exploitation moderno feito com sangue, sol e cinzas


Mathilda Lutz como Jen no filme 'Vingança'
Mathilda Lutz interpreta Jen no filme 'Vingança', de Coralie Fargeat


Poucos subgêneros do cinema de terror e exploitation são tão controversos (e tão facilmente mal compreendidos) quanto o rape and revenge. Estruturado, em linhas gerais, a partir de um trauma brutal seguido por um processo de retaliação igualmente extremo, ele sempre caminhou na corda bamba entre denúncia e exploração.

Clássicos como A Vingança de Jennifer (1978) estabeleceram uma gramática que mistura violência gráfica, catarse e desconforto moral. Vingança, o surpreendente longa-metragem de estreia da diretora e roteirista francesa Coralie Fargeat, não apenas dialoga diretamente com essa tradição (a começar pela coincidência nada inocente no nome de sua protagonista) como também a atualiza com uma consciência estética e temática rara.


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A trama é simples, quase esquemática, como manda a cartilha do subgênero. Jen, interpretada por Matilda Lutz, acompanha seu amante casado a uma casa isolada no deserto. O fim de semana de prazer rapidamente se transforma em pesadelo quando dois amigos do anfitrião chegam de surpresa. O que se segue é um ato de violência que a narrativa não romantiza, mas também não prolonga além do necessário. Dada como morta e abandonada, Jen sobrevive, e é a partir daí que o filme se reinventa como uma caçada invertida.

Matilda Lutz e Kevin Janssens como Jen e Richard em 'Vingança'
Matilda Lutz e Kevin Janssens como Jen e Richard em 'Vingança': um momento de calmaria antes da tempestade


Vingança conta com uma fotografia deslumbrante, explorando o deserto como um espaço ao mesmo tempo sedutor e hostil, com cores saturadas que flertam com o onírico. Cada enquadramento parece milimetricamente calculado para extrair beleza de um cenário que deveria ser apenas árido. A montagem alterna momentos de contemplação com explosões de violência sem jamais perder o controle tonal. A trilha sonora acompanha esse movimento com inteligência, intensificando a experiência sensorial sem se impor de forma intrusiva.

O roteiro, econômico em diálogos, encontra força justamente no que decide não verbalizar. Há uma rede de simbolismos que se constrói ao longo do filme, culminando na transformação de Jen em algo que transcende a vítima. A imagem da Fênix, que literalmente se imprime em seu corpo, não é sutil, e nem precisa ser. Fargeat trabalha com arquétipos e exageros conscientes, utilizando-os para comentar não apenas o trauma e a sobrevivência, mas também a forma como o corpo feminino é historicamente enquadrado no cinema de terror.


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Nesse sentido, Vingança é também uma sátira afiada e, por vezes, mordaz. A diretora subverte a lógica do male gaze ao expô-lo de maneira quase caricatural, transformando o que antes seria objeto em sujeito ativo da narrativa. Jen não apenas sobrevive: ela se reconstrói em termos quase mitológicos, como uma figura que emerge das próprias cinzas para reescrever as regras do jogo. Há algo de deliberadamente exagerado nessa jornada, e é justamente esse excesso que a torna tão eficaz.

Vincent Colombe como Stan em 'Vingança'
'Vingança': Stan (Vincent Colombe) ainda não sabe, mas está prestes a ser tornar a presa de sua própria caçada


As cenas de violência são outro ponto de destaque, e aqui o filme não economiza. Os efeitos práticos são viscerais, tangíveis, e contribuem para uma sensação de impacto físico impressionante. As mortes são sangrentas, estilizadas e, em certos momentos, quase operísticas. E então há a famosa cena do caco de vidro, um momento de pura angústia, em que o espectador praticamente sente a dor atravessar a tela. É um exemplo perfeito de como o filme manipula sensações de forma direta, sem precisar recorrer a artifícios baratos.

O elenco sustenta essa proposta com convicção. Matilda Lutz entrega uma performance física e emocionalmente exigente, conduzindo a transformação de Jen com uma presença que oscila entre vulnerabilidade e ferocidade. Mesmo com poucos diálogos, ela comunica tudo o que é necessário e mais um pouco. Os antagonistas, por sua vez, funcionam menos como personagens complexos e mais como engrenagens de uma dinâmica de poder que o filme se propõe a desmontar.


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Quando chega ao confronto final, Fargeat abandona qualquer pretensão de realismo e mergulha de vez no território do absurdo. O embate se transforma em um espetáculo quase cômico, não apenas pela quantidade generosa de sangue espalhado pela tela, mas também por uma escolha particularmente ousada: uma longa sequência de nudez masculina que se estende por tempo suficiente para inverter, com ironia, décadas de convenções do gênero. É um momento que sintetiza bem o espírito do filme: provocador, consciente e, acima de tudo, seguro de si.

Matilda Lutz como Jen em 'Vingança'
Matilda Lutz como Jen no filme 'Vingança'


Claro, há pequenas oscilações de ritmo ao longo da jornada, trechos em que a narrativa parece respirar por tempo demais antes de avançar. Mas são deslizes pontuais em um conjunto que, no geral, demonstra um controle impressionante de tom e intenção. Fargeat sabe exatamente o filme que quer fazer, e não hesita em levá-lo até as últimas consequências.

Vingança é um exemplo raro de como revisitar um subgênero carregado de controvérsias sem se tornar refém de seus vícios. Ao combinar estética apurada, violência estilizada e uma leitura crítica afiada, o filme se afirma como uma obra que respeita suas origens ao mesmo tempo em que as desafia. Não é apenas um exercício de estilo, mas uma reinterpretação, desconfortável, mas vigorosa.


Nota: 7,8/10


Título original: Revenge.

Título Nacional: Vingança.

Gênero: Suspense, ação, terror.

Produção: 2017.

Lançamento: 2018.

País: França.

Duração: 108 minutos.

Roteiro: Coralie Fargeat.

Direção: Coralie Fargeat.

Elenco: Matilda Anna Ingrid Lutz, Kevin Janssens, Vincent Colombe, Guillaume Bouchède.


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Ed Walter

Criador da 'Sangue Tipo B' e escritor na comunidade de filmes de terror desde 2017. Apaixonado por filmes de terror dos anos 70 e 80. Joga 'Skyrim' até hoje.

3 Comentários

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  1. Muito bom pra quem curte o estilo "sangue e peitinhos", nesse caso mais sangue...

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  2. Para os apaixonados por filme de ação e violencia ta aí o filme certo. Apesar de ser um tema bastante batido,a direção surpreende,as locações enfeitiçam e os atores conseguem convencer. Destaque para as cenas de violencia,e maquiagem.Também não esconde nada quando o assunto é sangue,alias o que se pode ver neste filme é enchorrada de sangue do inicio ao fim.Para quem gosta de comer um lanchinho durante a exibição é melhor deixar pra depois...o telespectador tem que ter estomago! Os apaixonados pelo genero vão adorar.

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  3. ....tudo funciona perfeitamente neste filme....até que .....mais "SANGUE"aparece!!

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