Crítica | Noite de Lobos (Hold the Dark, 2018)

O desaparecimento de um menino dá início a eventos perturbadores em um vilarejo do Alasca no novo filme de Jeremy Saulnier

Jeffrey Wright em imagem do filme 'Noite de Lobos'

Por Ed Walter

Jeffrey Wright (Westworld) interpreta Russell Core, um especialista em comportamento lupino que viaja até um vilarejo do Alasca atendendo a um pedido de ajuda de uma moradora desesperada: Medora Slone (Riley Keough, de A Casa que Jack Construiu), cujo filho pequeno teria sido levado por um lobo. Core concorda em caçar o animal. Mas uma série de descobertas apontam que a situação pode ser muito mais complexa e assustadora do que aparentava.

O filme é o novo trabalho de Jeremy Saulnier, que começou sua carreira com a comédia de terror Murder Party, chamou a atenção com o suspense Ruína Azul e ganhou o respeito dos fãs do cinema de terror com o cultuado Sala Verde. A exemplo desses filmes, Noite de Lobos é uma obra repleta de suspense e momentos angustiantes. A violência também está sempre presente, e continua causando muito impacto. Primeiro porque se manifesta de maneira inesperada. E segundo porque os efeitos especiais cuidam de dar um realismo perturbador a essas cenas.

Alexander Skarsgård em imagem do filme 'Noite de Lobos'

O filme conta com uma fotografia espetacular. Ambientes internos sujos e claustrofóbicos contrastam com planos exuberantes das paisagens geladas. A natureza oprime mas ao mesmo tempo traz um estranho sentimento de paz em meio à escuridão que rodeia todos os personagens. Alguns deles abraçam essa escuridão. Outros acabam sendo rejeitados por ela. A direção de Saulnier é tudo, menos obvia. E a beleza de suas cenas vem quase sempre acompanhada do desconforto. Como estamos diante de um filme com mais de duas horas de duração, eu esperava que ele tivesse alguns momentos arrastados. Isso de fato acontece. Mas Saulnier consegue manter o espetáculo interessante na maior parte do tempo.

O diretor também acerta na escolha de seu elenco. O talentoso Jeffrey Wright transmite muito bem o cansaço e o tormento que acompanham seu personagem Core, que acaba servindo como nosso guia na tentativa de entender os eventos estranhos que se acumulam, um atrás do outro. Riley Keough está formidável como Medora. Aliás, os momentos em que ela contracena com Wright são um show à parte. Pena que ela tenha pouco tempo em tela comparado com os outros atores. Já Alexander Skarsgård (True Blood) faz de Vernon Slone um personagem frio, calculista e genuinamente ameaçador. Ele também é responsável pelos momentos mais brutais do filme. E algumas de suas cenas fazem com que a obra chegue muito perto do cinema de terror.


Riley Keough em imagem do filme 'Noite de Lobos'

Noite de Lobos encontra seu ponto fraco no roteiro de Macon Blair, que adapta o livro homônimo de William Giraldi. Ele levanta muitas perguntas. E se recusa a responder a maioria delas. O público pode tentar solucionar sozinho os mistérios prestando atenção em conversas aleatórias ou em pequenos detalhes, como uma foto mostrada de relance em uma das cenas. Mas por mais que se esforce, será difícil encontrar uma explicação para tudo que viu. Principalmente porque, no final, o filme entra definitivamente no terreno das metáforas.

Essa tentativa desnecessária de tentar ser inteligente demais acaba transformando Noite de Lobos em uma obra muito mais confusa do que precisava ser. E nem a direção poderosa de Saulnier e o esforço de seu ótimo elenco são suficientes para afastar a sensação de decepção. Gosto de filmes complexos. Mas nesse caso, pelo menos em sua camada mais superficial, um pouquinho de simplicidade teria ajudado bastante.

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O melhor: Direção e elenco espetaculares.
O pior: Tenta ser mais complexo do que realmente é.

Título original: Hold the Dark.
Gênero: Drama, suspense.
Produção: 2018.
Lançamento: 2018.
Pais: Estados Unidos.
Duração: 125 minutos.
Roteiro: Macon Blair.
Direção: Jeremy Saulnier.
Elenco: Jeffrey Wright, Alexander Skarsgård, Riley Keough, James Badge Dale, Michael Tayles, Julian Black Antelope.

Ed Walter

Criador da 'Sangue Tipo B' e escritor na comunidade de filmes de terror desde 2017. Apaixonado por filmes de terror dos anos 70 e 80. Joga 'Skyrim' até hoje.

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