POV: Presença Oculta (Bodycam,2025)

Quando o medo é real… até a câmera piscar e lembrar que é cinema


Imagem do filme 'POV: Presença Oculta'
'POV: Presença Oculta': o turno da noite dos policiais Jackson e Bryce será tudo, menos tranquilo


Há um mérito imediato em POV: Presença Oculta: ele entende que o terror de baixo orçamento não precisa de grandes ideias mirabolantes, mas de execução precisa. Sob a direção de Brandon Christensen, que vem construindo uma carreira discreta dentro do gênero desde O Enviado do Mal, o filme aposta em um conceito simples e potencialmente eficaz: dois policiais, uma ocorrência aparentemente banal e uma presença sobrenatural que decide transformar tudo em um pesadelo contínuo.

Jaime M. Callica e Sean Rogerson interpretam Jackson e Bruce, enviados para atender um chamado em um bairro marginalizado. Logo nas primeiras falas, o roteiro deixa escapar uma possível camada temática: a desconexão entre a polícia e a comunidade que deveria proteger. Jackson tem raízes naquele lugar. Bryce não esconde seu desprezo. É um conflito interessante, ainda que o filme não saiba exatamente o que fazer com ele.


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A ocorrência sai do controle com rapidez, mergulhando os personagens em uma espiral de violência, decisões morais difíceis e, claro, algo muito pior: uma força invisível que parece determinada a não deixá-los sair vivos. O que poderia ser apenas mais um thriller policial se transforma, então, em um terror de sobrevivência com ambições sobrenaturais e ecos que vão de Operação Obscura a Patrulha Noturna.

Jaime M. Callica como Jackson em 'POV: Presença Oculta'
Jaime M. Callica interpreta o policial Jackson em 'POV: Presença Oculta'


É justamente nesse território que POV: Presença Oculta brilha. A escolha de utilizar câmeras corporais em vez da tradicional câmera tremida do found footage é um acerto técnico considerável. As imagens são mais estáveis, mais legíveis, e ainda mantêm a sensação de imersão. Soma-se a isso o fato de a narrativa se desenrolar praticamente em tempo contínuo, o que amplifica o desespero e cria uma claustrofobia eficiente.

A ambientação também merece elogios. Filmado em locações abandonadas em Alberta, no Canadá, o longa faz uso inteligente de luz e sombra para construir uma atmosfera genuinamente inquietante. Há momentos em que o silêncio pesa, em que o escuro parece se mover, em que a ameaça é sentida antes de ser vista. É nesses trechos que o filme se aproxima de algo realmente assustador.


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Os efeitos práticos ajudam a sustentar essa ilusão de realidade, assim como a condução do mistério. Durante boa parte da projeção, há um cuidado em não revelar demais, em sugerir mais do que mostrar. A estratégia funciona, a tensão cresce de maneira orgânica, e o espectador é mantido em estado de alerta constante, tentando entender o que exatamente está acontecendo.

Sean Rogerson como Bryce em 'POV: Presença Oculta'
O policial Bryce (Sean Rogerson) se prepara para atender uma nova ocorrência em 'POV: Presença Oculta'


O primeiro sinal de desgaste surge quando o filme decide explicar demais. A entrada da mãe de Jackson, vivida por Keegan Connor Tracy, marca um ponto de inflexão: aquilo que antes era sugestão passa a ser verbalizado. Não chega a comprometer tudo de imediato, mas enfraquece a sutileza que sustentava o horror. O filme começa, discretamente, a trocar mistério por exposição.

E então vem o verdadeiro problema: o CGI. Há usos pontuais que até funcionam, como ruas que se distorcem e uma casa que surge onde não deveria estar, criando uma sensação de deslocamento interessante. Mas quando o filme decide materializar sua ameaça em uma criatura tentacular que parece ter saído de uma cutscene de game ruim, o impacto desaba. É o tipo de escolha que quebra o pacto com o espectador, como se o próprio filme interrompesse para dizer: “calma, é tudo de mentira”.


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No ato final, a narrativa perde o rumo. A decisão de flertar com a ideia de que tudo pode ser uma alucinação esvazia o peso das experiências anteriores. O que antes era terror se transforma em repetição: corredores escuros, idas e vindas, tensão diluída. Mesmo com uma ou outra imagem impactante, o clímax nunca se materializa de fato. Fica a sensação de que o filme construiu um enigma maior do que era capaz de resolver.

Imagem do filme de terror 'POV: Presença Oculta'
Uma ocorrência rotineira foge rapidamente do controle em 'POV: Presença Oculta'


Seria injusto descartar completamente POV: Presença Oculta. Há competência técnica, boas ideias e momentos genuinamente eficazes. Seus problemas, especialmente na reta final, impedem que ele alcance algo mais consistente, mas não anulam o que funciona. No saldo, é um filme regular com lampejos de algo muito maior. Talvez, o trabalho mais interessante da carreira de Christensen até agora.


Nota: 5,2/10


Título Original: Bodycam.

Título Nacional: POV: Presença Oculta.

Gênero: Terror.

Produção: 2025.

Lançamento: 2026.

País: Canadá.

Duração: 1 h 15 min.

Roteiro: Brandon Christensen, Ryan Christensen.

Direção: Brandon Christensen.

Elenco: Jaime M. Callica, Sean Rogerson, Catherine Lough Haggquist, Angel Prater, Keegan Connor Tracy, Chris Casson, Elizabeth Longshaw, Colette Nwachi, Joe Perry.



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Ed Walter

Criador da 'Sangue Tipo B' e escritor na comunidade de filmes de terror desde 2017. Apaixonado por filmes de terror dos anos 70 e 80. Joga 'Skyrim' até hoje.

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