Novo filme de Mercedes Bryce Morgan promete tensão sexual e mistério à beira do lago, mas encontra sua verdadeira identidade quando abraça o gore campy no ato final
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| Maddie Hasson interpreta Sage no filme 'Lago dos Ossos' |
Lago dos Ossos, o novo trabalho da diretora Mercedes Bryce Morgan, abre como se estivesse decidido a resgatar o espírito sujo e provocativo do exploitation setentista: um casal nu corre desesperadamente pela floresta enquanto uma figura misteriosa dispara projéteis de besta em sua direção. A sequência tem energia, violência e um charme grindhouse irresistível, daqueles que fazem o espectador imediatamente se ajeitar na cadeira pensando: “ok, talvez venha coisa boa aí”.
Depois da abertura sanguinolenta, o filme troca o caos pela apresentação de Diego e Sage, interpretados por Marco Pigossi e Maddie Hasson. O casal tenta salvar um relacionamento desgastado viajando para uma mansão isolada à beira de um lago cercado por histórias de desaparecimentos. O nome “Lago dos Ossos”, convenhamos, já deveria servir como aviso suficiente para cancelar a reserva e procurar um Airbnb menos amaldiçoado. Mas personagens de thriller claramente assinam contratos proibindo decisões inteligentes.
Os planos de um final de semana romântico vão por água abaixo quando entram em cena Will e Cin, interpretados por Alex Roe e Andra Nechita. Segundo o roteiro, houve uma confusão com as reservas da casa. Segundo qualquer pessoa que já assistiu a Noites Brutais, Perdidos na Noite ou basicamente qualquer filme sobre estranhos dividindo um espaço isolado, isso é o equivalente narrativo de ouvir música de circo antes da tragédia começar. Ainda assim, todos aceitam dividir a mansão com uma tranquilidade admirável.
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| Cin (Andra Nechita) aproveita o dia ensolado no campo no filme 'Lago dos Ossos' |
O início da convivência dos dois casais não é exatamente empolgante. Boa parte da primeira metade do filme consiste em diálogos que até ajudam a mapear as inseguranças e desejos dos personagens, mas raramente geram tensão real. Há momentos em que Lago dos Ossos parece esquecer que deveria ser um thriller, ficando preso em um limbo de conversas arrastadas.
Diego abandonou a carreira de professor para tentar escrever um livro. Sage sustenta financeiramente a relação e acumula níveis cada vez maiores de frustração silenciosa. É uma dinâmica onde o desconforto nasce muito mais do que não é dito do que dos conflitos explícitos. Existe uma tensão íntima interessante ali, mas o filme leva tempo demais mastigando essas questões sem avançar a trama.
A diretora claramente percebe esse problema e tenta compensar com cenas mais sensuais. Só que aí surge outro obstáculo: ninguém envolvido parece confortável com a proposta de “thriller erótico”. As cenas de sexo têm a energia de adolescentes tentando assistir filme proibido com o volume da televisão no mínimo. Personagens fazem sexo sem tirar a roupa, objetos estrategicamente posicionados surgem na frente dos corpos como velhos truques de Austin Powers: Um Agente Nada Discreto, e a promessa de erotismo fica reduzida a sugestões tímidas e algumas imagens rápidas encontradas em uma gravação.
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| Marco Pigossi e Maddie Hasson interpretam o casal Diego e Sage em 'Lago dos Ossos' |
Curiosamente, tudo começa a funcionar melhor quando o filme praticamente abandona a ideia de ser erótico. Por volta dos quarenta minutos, um pedido de casamento inesperado empurra a narrativa para um terreno mais desconfortável e manipulador. Segredos emergem, dinâmicas de poder se revelam e o longa passa a operar em uma frequência que remete a Não Fale o Mal. Mentiras, sedução, jogos psicológicos e constrangimento social começam finalmente a gerar algum envolvimento.
Quando chega ao ato final, Lago dos Ossos muda de pele mais uma vez e abraça uma energia campy surpreendentemente divertida. A revelação principal não chega exatamente a chocar, até porque o filme praticamente deixa pegadas luminosas apontando para ela, mas a decisão de mergulhar no exagero funciona muito melhor do que o suspense contido da primeira metade. O gore entra em cena com entusiasmo, os efeitos práticos impressionam e a violência finalmente recupera a brutalidade prometida pela abertura.
A última morte, em especial, é executada com um sadismo criativo que rivaliza diretamente com a sequência inicial. É quase como se o filme lembrasse tarde demais qual tipo de experiência realmente queria proporcionar. E talvez esse seja justamente o maior problema — e também o maior charme — de Lago dos Ossos: ele passa boa parte do tempo fingindo ser um thriller erótico sofisticado, quando no fundo só queria ser um slasher sujo, exagerado e divertido.
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| Cin e Will (Andra Nechita e Alex Roe) no filme 'Lago dos Ossos' |
O longa de Mercedes Bryce Morgan funciona melhor quando para de tentar parecer mais elegante do que realmente é. Há falhas evidentes, promessas não cumpridas e um ritmo irregular, mas também existe personalidade suficiente para tornar a experiência curiosamente agradável. É um filme indeciso e ocasionalmente constrangedor, mas que sabe espalhar sangue pela tela com competência quando finalmente perde a timidez.
Nota: 5/10
Título Original: Bone Lake.
Título Nacional: Lago dos Ossos.
Gênero: Suspense, terror.
Produção: 2024.
Lançamento: 2026.
País: Estados Unidos da América.
Duração: 1 h 34 min.
Roteiro: Joshua Friedlander.
Direção: Mercedes Bryce Morgan.
Elenco: Alex Roe, Maddie Hasson, Marco Pigossi, Andra Nechita, Clayton Spencer, Eliane Reis.
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