Com humor afiado, visual vibrante e uma discussão interessante sobre identidade e cultura pop, o novo filme de Jane Schoenbrun promete mais do que consegue entregar.
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| 'Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte' | Foto: © 2026 - MUBI |
Para quem saiu de Eu Vi o Brilho da TV anestesiado, entediado ou com a sensação de ter passado duas horas esperando o filme finalmente começar, os primeiros minutos de Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte operam um pequeno milagre: eles despertam otimismo. A diretora e roteirista Jane Schoenbrun ressurge com uma vivacidade impressionante, trocando a sisudez arrastada do trabalho anterior por um ritmo mais fluido, um senso de humor genuíno e uma disposição aparentemente renovada para se divertir com as próprias ideias. Desta vez, parece estar menos interessada em testar a paciência do espectador e mais em convidá-lo para a brincadeira.
Os créditos iniciais são um espetáculo à parte. Pôsteres, fitas VHS, brinquedos e recortes de jornais reconstituem a trajetória de "Camp Miasma", uma franquia fictícia de terror que conquistou os adolescentes, perdeu o prestígio e acabou se tornando uma relíquia decadente depois que seu assassino, Little Death, abandonou o acampamento para perseguir jovens pelas ruas de Manhattan. A brincadeira com Sexta-Feira 13 é evidente. Mais tarde, há inclusive uma cena do filme fictício em que personagens se reúnem ao redor da fogueira para contar a história de um jovem de gênero fluido que morreu em um lago e voltou em busca de vingança.
A diversão continua quando conhecemos Kris (Hannah Einbinder), uma cineasta queer que conquistou alguma notoriedade em Sundance com seu primeiro longa-metragem, descrito como uma espécie de remake de Psicose filmado do ponto de vista da cortina do chuveiro. Convenhamos: se essa sinopse não despertar a curiosidade de um fã de cinema de gênero, talvez seja melhor conferir se ele ainda está respirando.
Apaixonada por "Camp Miasma" desde os oito anos, Kris recebe de um grande estúdio a missão de ressuscitar a franquia e se agarra à possibilidade de convencer Billy Presley (Gillian Anderson), a final girl do filme original, a participar do revival. Para a cineasta, não se trata apenas de uma oportunidade profissional, mas de reencontrar uma parte importante de sua própria formação.
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| 'Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte' | Foto: © 2026 - MUBI |
Presley vive isolada no Camp Trivoli, o local onde o primeiro filme foi rodado. O relacionamento entre as duas ocupa uma parcela considerável da narrativa, o que poderia ser um problema para quem chegou esperando adolescentes sendo perseguidos por um sujeito mascarado. Curiosamente, é justamente nessa longa pausa pré-carnificina que o filme encontra algumas de suas melhores qualidades.
O embate intelectual entre Kris e Presley, especialmente quando as duas discutem a influência da cultura woke sobre o terror contemporâneo, rende diálogos afiados e provocações que dispensam respostas fáceis. Schoenbrun demonstra que sabe transformar divergências estéticas e geracionais em conflito dramático, sem precisar recorrer imediatamente a um machado ou a uma piada sobre membros decepados.
É também nesses momentos que Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte aborda questões de identidade de gênero e a maneira como a cultura pop pode moldar a percepção que temos de nós mesmos. São temas que Schoenbrun já explorava em Eu Vi o Brilho da TV, mas que aqui aparecem integrados a uma dinâmica mais acessível e, por vezes, comovente. Kris e Presley não são apenas representantes de posições diferentes em uma discussão sobre o que o terror deve ou não deve ser: são personagens cujas experiências com o cinema, a memória e a própria identidade ajudam a explicar por que enxergam o mundo de maneiras tão distintas.
A química entre as atrizes dá vida a essa relação, enquanto a trilha sonora de Alex G e a fotografia vibrante de Eric Yue contribuem para uma atmosfera que alterna nostalgia, estranheza e melancolia sem sufocar tudo sob uma camada de solenidade. Por vários minutos, chega a ser possível esquecer o peso quase pornográfico das promessas embutidas no título.
Infelizmente, essa maturidade narrativa acaba se revelando uma espécie de miragem. Em determinado momento, Schoenbrun parece perder o interesse pela história que vinha construindo e decide implodir o próprio filme. A sátira ao slasher dá lugar a um festival de humor físico, surrealismo descontrolado e mortes cartunescas. O problema não é a mudança de tom em si — o terror sempre conviveu muito bem com o absurdo. Só que a nova abordagem carece do timing cômico, da inventividade e do carisma necessários para transformar o caos em diversão.
A impressão é a de que o surrealismo deixa de funcionar como uma escolha estética e passa a servir como rota de fuga para um roteiro que não sabe muito bem o que fazer com os conflitos que apresentou. Personagens que antes pareciam interessantes tornam-se peças de uma sucessão de situações cada vez mais estridentes, enquanto a sátira perde a precisão e começa a confundir irreverência com aleatoriedade.
É uma pena, porque o filme havia demonstrado que conseguia discutir identidade, nostalgia e as contradições do terror moderno sem abrir mão do humor. Em vez de desenvolver essas ideias até uma conclusão satisfatória, Schoenbrun parece acreditar que basta acelerar a maluquice para que o espectador não perceba o quanto a narrativa está desmoronando. Percebe, sim. E começa a olhar para o relógio.
Muito antes do ato final, a boa vontade acumulada dá lugar a uma irritação quase protocolar. É nesse ponto que o título começa a parecer uma piada de mau gosto. Quando um filme chamado Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte faz o espectador torcer para que pelo menos a parte do sexo renda alguma coisa — nem que seja uma cena ridícula capaz de provocar risadas involuntárias —, é sinal de que as expectativas foram parar em algum lugar muito distante do acampamento. E nem essa última esperança se concretiza de maneira satisfatória.
Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte é um filme frustrante justamente porque não é desprovido de qualidades. Há inteligência na maneira como reconstrói a mitologia de sua franquia fictícia, há humor nos diálogos, há sensibilidade na relação entre as protagonistas e há uma cineasta com ideias visuais e temáticas que merecem atenção. Em comparação com Eu Vi o Brilho da TV, representa uma evolução considerável em ritmo e acessibilidade, além de demonstrar que Schoenbrun é perfeitamente capaz de escrever cenas envolventes sem transformar cada conversa em uma prova de resistência.
Acredito que a diretora ainda tem muito a oferecer ao cinema de gênero, e seria injusto ignorar o potencial demonstrado aqui por causa de uma metade final tão desastrada. Há lampejos de um filme muito melhor escondido ali dentro. O que falta é a coragem de deixar essas qualidades conduzirem a história, em vez de sacrificá-las no altar do choque. Do jeito que ficou, nem mesmo Little Death consegue matar a sensação de oportunidade perdida.
Nota: 4/10
Título Original: Teenage Sex and Death at Camp Miasma.
Título Nacional: Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte.
Gênero: Terror, comédia.
Produção: 2026.
Lançamento: 2026.
País: Canadá, Reino Unido, Estados Unidos da América.
Duração: 1 h 52 min.
Roteiro: Jane Schoenbrun.
Direção: Jane Schoenbrun.
Elenco: Hannah Einbinder, Gillian Anderson, Jack Haven, Jasmin Savoy Brown, Aren Buchholz, Florence Barrett, Kevin McDonald, Jordana Summer, Ryan McEwen, Sarah Sherman, Amanda Fix, William Vaughan, Quintessa Swindell, Arthur Conti, Patrick Fischler, Zach Cherry, Hunter Dillon, Eva Victor, Nikki Bryce, Jess McLeod, Willy McGee, Louise Weard, Dylan Baker, Freya Edwards, Cassandra Ebner.
RELACIONADOS: #Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte #Jane Schoenbrun #Hannah Einbinder #Gillian Anderson



