Estreia de Izabel Pakzad mistura terror, humor ácido e vingança feminina em uma viagem ao deserto que tem boas ideias, violência gráfica, e muitos problemas de ritmo.
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| 'Garotas Só Querem Vingança' | Foto: © Andres Moret Urdampilleta |
No cinema de terror e suspense, sempre há algo de suspeito em um grupo de jovens que resolve passar férias no deserto depois de uma noite regada a álcool, drogas e decisões questionáveis. E em Garotas Só Querem Vingança, o longa de estreia da diretora, atriz e roteirista Izabel Pakzad, essa combinação serve de ponto de partida para uma história que promete transformar uma escapada entre amigas em um pesadelo sangrento. O problema é que o filme demora tanto para cumprir a promessa que, em certos momentos, dá vontade de conferir se as protagonistas não erraram o caminho e foram parar em outro gênero.
O filme acompanha Amber (Helena Howard), Livinia (Bella Thorne), Zosia (Zion Moreno), Lola (Chloe Cherry) e Maddy (Sophia Ali), cinco amigas festeiras de Los Angeles que estão de férias da faculdade e só querem aproveitar a vida. Nós as conhecemos dançando como se não houvesse amanhã em uma festa num iate, até que a diversão termina com uma expulsão coletiva. Aos olhos de todo mundo na festa, a responsável pelo tumulto é Amber, que teria bebido além da conta e causado um belo barraco. Só que há informações que o espectador conhece e eles não, o que transforma a reação de Amber em algo mais complicado do que uma simples história de ressaca moral. Afinal, em filmes de terror, a pessoa que parece estar exagerando nem sempre é aquela que deveria ser ignorada.
Depois de se entupir com mais álcool e drogas, o quinteto parte para Joshua Tree em busca de alguns dias de liberdade. O que encontram é um vizinho mal-humorado com baixa tolerância a som alto, que começa a se incomodar com a presença das hóspedes. Enquanto isso, três homens locais parecem ter transformado a crueldade gratuita em passatempo. Paralelamente, o trauma de Amber volta a assombrá-la, e suas amigas demonstram uma preocupante dificuldade para perceber que talvez haja algo mais sério acontecendo. Entre conflitos internos, habitantes hostis e uma sucessão de decisões pouco recomendáveis, a viagem começa a tomar um rumo cada vez mais violento.
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| 'Garotas Só Querem Vingança' | Foto: © 2026 - Shudder |
Izabel Pakzad partiu de uma experiência pessoal para desenvolver essa história. Segundo ela, durante uma viagem ao deserto, ela e algumas amigas foram perseguidas por um carro na madrugada. O episódio inspirou a situação que desencadeia a escalada de tensão do filme, e ajuda a explicar o interesse da cineasta por temas como vulnerabilidade, medo e a maneira como mulheres são percebidas quando estão longe de ambientes familiares. É uma premissa interessante, e a perseguição marca justamente o momento em que Garotas Só Querem Vingança começa a abandonar o território do thriller psicológico para se aproximar do cinema de vingança feminina.
A questão é que essa transformação demora uma eternidade para acontecer. Pakzad dedica tempo demais aos conflitos entre as protagonistas e à revelação gradual dos traumas de Amber, como se estivesse convencida de que cada discussão, olhar desconfiado ou momento de introspecção precisasse receber sua própria pequena cerimônia. Há espaço para desenvolver personagens e construir tensão, evidentemente, mas o ritmo acaba prejudicado quando o filme insiste em permanecer no mesmo lugar. Uma alucinação particularmente prolongada ilustra bem o problema. Quando a narrativa finalmente decide acelerar, o filme já está perto demais do desfecho para que a tensão produza todo o efeito desejado.
Esse foco excessivo nas protagonistas também prejudica os antagonistas. Os três homens que representam a ameaça principal parecem ter sido importados de um manual ilustrado de vilania, daqueles em que a única instrução para interpretar um personagem é fazer cara de poucos amigos e agir como um canalha. Eles aparecem sem contexto suficiente, são difíceis de distinguir entre si, e não ganham personalidade para além da maldade que praticam. Não é preciso transformar todo vilão de filme de terror em um complexo estudo sociológico. Mas, a menos que você esteja escrevendo um remake de O Vingador Tóxico, convém oferecer alguma coisa além de um letreiro invisível dizendo “estes são os sujeitos ruins”.
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| 'Garotas Só Querem Vingança' | Foto: © 2026 - Shudder |
Outro obstáculo é a dificuldade de encontrar um tom consistente. Em alguns momentos, Garotas Só Querem Vingança parece buscar a crueza de A Vingança de Jennifer, clássico de 1978 dirigido por Meir Zarchi. Em outros, busca se aproximar da abordagem estilizada e provocadora de Vingança, de Coralie Fargeat, tentando satirizar o olhar masculino e brincar com as convenções da final girl tradicional, a sobrevivente que costuma carregar a responsabilidade de chegar viva aos créditos finais. São referências promissoras, mas a mistura nem sempre funciona. A tentativa de ridicularizar certos clichês acaba tornando as próprias protagonistas cansativas em vários momentos.
O filme tem seus acertos. O visual é um dos seus pontos fortes, sobretudo nas cenas de festa iluminadas por neon, que conferem à produção uma identidade visual interessante. Há também momentos de violência bastante gráficos, incluindo uma cena de tortura grotesca que parece determinada a permanecer na memória do espectador muito depois de os créditos terminarem.
É nesse terreno que a produção encontra parte de sua personalidade: quando deixa de explicar suas intenções e passa a mostrar o que sabe fazer com sangue, desconforto e situações extremas, torna-se consideravelmente mais interessante. Também merece elogio uma subversão de expectativas envolvendo um dos possíveis antagonistas. É um daqueles momentos em que o roteiro demonstra que tinha ideias capazes de surpreender, mesmo que nem sempre saiba como distribuí-las ao longo da narrativa.
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| 'Garotas Só Querem Vingança' | Foto: © 2026 - Shudder |
Vale lembrar que este é o primeiro longa-metragem de Izabel Pakzad. Isso não torna os problemas de ritmo e construção narrativa menos perceptíveis, mas ajuda a colocar o resultado em perspectiva. Existe uma diferença entre uma cineasta que não tem nada a dizer e outra que tem várias ideias, referências e ambições, mas ainda está aprendendo a organizá-las. Garotas Só Querem Vingança parece pertencer à segunda categoria. Seu desejo de combinar crítica social, suspense psicológico, humor ácido e violência exploitation é compreensível; o que falta é encontrar a medida certa para que esses elementos se complementem, em vez de disputar a atenção do espectador.
Com um roteiro mais enxuto, antagonistas mais bem construídos e maior confiança na própria história, Pakzad pode entregar algo muito mais contundente no futuro. Por enquanto, Garotas Só Querem Vingança é um filme de boas intenções, visual atraente e alguns momentos memoráveis, mas prejudicado por uma longa preparação para uma vingança que deveria chegar muito antes.
Nota: 4/10
Título Original: Find Your Friends.
Título Nacional: Garotas Só Querem Vingança.
Gênero: Suspense, terror.
Produção: 2025.
Lançamento: 2026.
País: Estados Unidos da América, Itália.
Duração: 1 h 29 min.
Roteiro: Izabel Pakzad.
Direção: Izabel Pakzad.
Elenco: Helena Howard, Bella Thorne, Zión Moreno, Chloe Cherry, Sophia Ali, Chris Bauer, Jake Manley, Blaine Kern III, Israel Broussard, Harrison Sloan Gilbertson, Patrick Millin, Izabel Pakzad, Samson Moeakiola, Austin Woods, Zak Steiner.
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