Crítica | Hereditário (Hereditary, 2018)

Família é atormentada por eventos sobrenaturais perturbadores em 'Hereditário', o filme de estreia do diretor Ari Aster


A atriz Milly Shapiro como Charlie no filme 'Hereditário', de Ari Aster
A atriz Milly Shapiro como Charlie no filme 'Hereditário', de Ari Aster. Foto: Reid Chavis


A distribuidora e produtora independente A24 vem se tornando sinônimo de cinema de qualidade. Foi de lá que saíram obras como Moonlight: Sob a Luz do Luar, O Lagosta e O Artista do Desastre, que chegaram até as premiações do Oscar. A A24 também é a casa de duas boas ficções científicas sombrias: o surpreendente Ex-Machina: Instinto Artificial, e o experimental Sob a Pele, uma verdadeira pintura abstrata em movimento estrelada pela maravilhosa Scarlett Johansson.

Os fãs do cinema de terror também ganharam seus presentes. Tivemos o aclamado A Bruxa, de Robert Eggers, filme que revelou o talento da atriz Anya Taylor-Joy. Tivemos o tenso Um Monstro no Caminho, de Bryan Bertino, o claustrofóbico Ao Cair da Noite, de Trey Edward Shults, e o perturbador Sala Verde, de Jeremy Saulnier. Agora é a vez de Hereditário, longa de estreia do diretor Ari Aster, que fez muito barulho em festivais de cinema, e chegou a ser chamado de "O Exorcista da nova geração".

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Toni Collette (A Hora do Espanto) interpreta Annie Graham, uma artista que está lidando com a morte de sua mãe enquanto tenta terminar uma exposição de dioramas que parecem retratar seu estado psicológico e o cotidiano de sua própria família. Annie vive em uma casa relativamente isolada na companhia do bondoso marido Steve (Gabriel Byrne, de Stigmata) e de seus dois filhos, o adolescente Peter (Alex Wolff, de Jumanji: Bem-Vindo à Selva) e uma menina de 13 anos chamada Charlie (a estreante Milly Shapiro). A morte da mãe de Annie trará consequências assustadoras para a família. Isso é tudo que você precisa saber sobre a história.

O ator Alex Wolff como Peter no filme 'Hereditário', de Ari Aster
O ator Alex Wolff como Peter no filme 'Hereditário', de Ari Aster


Uma das primeiras coisas que você perceberá é que Hereditário tem um ritmo lento. Durante um bom tempo, parece que nada interessante está acontecendo. Mas as aparências enganam, pois tudo está sendo cuidadosamente construído para levar a uma cena perturbadora. Ela acontece lá pela meia hora de filme, e acredito que deixará os espectadores tão chocados, que muitos se questionarão se querem mesmo continuar assistindo. Caso a resposta seja sim, creio que todos ficarão em estado de alerta, pois se o diretor não fez rodeios em mostrar uma cena tão medonha, pode repetir a dose e nos traumatizar novamente.

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Essa dúvida ajuda a criar um clima de tensão crescente, que Aster potencializa com a trilha sonora, também imprevisível. Ela está presente nos momentos de calmaria, mas silencia nas cenas de terror, causando incômodo e dificultando nossa tarefa de adivinhar se o que veremos a seguir virá ou não acompanhado de um jump scare. Logo você perceberá que Aster também evita esse recurso, e ainda assim consegue provocar alguns arrepios genuínos.

Toni Collette impressiona no papel da mãe devastada que precisa lidar com o luto e com as consequências de uma decisão que poderá destruir sua família. Ela é o grande destaque do elenco, e acredito que não é exagero dizer que este é o melhor papel de sua carreira. Alex Wolff não tem tantos diálogos, mas seus gestos e expressões são suficientes para transmitir todo o horror que seu personagem presencia. E, acredite, ele presencia muitos.

A atriz Toni Collette como Annie no filme 'Hereditário', de Ari Aster
A atriz Toni Collette como Annie no filme 'Hereditário', de Ari Aster


A garota Milly Shapiro serve mais para desorientar o público sobre as reais intenções do diretor. Mas ela é muito boa em ser assustadora, causa desconforto sempre que pode, e mesmo quando não está em cena, sua presença pode ser sentida através dos sons estranhos que faz com a boca. Gabriel Byrne está bem como o pai que tenta desesperadamente impedir que a família se fragmente. Sua atuação é mais contida, mas o personagem funciona muito bem como o lado racional da história.

O pesadelo sufocante de Ari Aster muda de tom no terceiro ato. O fato do diretor abraçar o terror explícito pode desagradar quem esperava por um final mais sutil, mas não foi o meu caso. Mesmo discordando que este seja o "Exorcista da nova geração", não dá para negar que Hereditário impressiona, e acredito que deixará sua marca no gênero.

Nota: 7.5/10

Título original: Hereditary.
Gênero: Drama, terror.
Produção: 2018.
Lançamento: 2018.
País: Estados Unidos.
Duração: 127 minutos.
Roteiro: Ari Aster.
Direção: Ari Aster.
Elenco: Toni Collette, Gabriel Byrne, Alex Wolff, Milly Shapiro, Ann Dowd, Mallory Bechtel.

Ed Walter

Criador da 'Sangue Tipo B' e escritor na comunidade de filmes de terror desde 2017. Apaixonado por filmes de terror dos anos 70 e 80. Joga 'Skyrim' até hoje.

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