A busca pela beleza idealizada vira fonte de horror nessa adaptação brutal do conto de 'Cinderela' dirigida por Emilie Blichfeldt
A Meia-Irmã Feia é daqueles filmes que deixam claro, logo nos primeiros minutos, que não está interessado em confortar o espectador. Trata-se de um drama impregnado de terror corporal, uma experiência que soa como se David Cronenberg tivesse decidido adaptar um conto dos irmãos Grimm sem qualquer preocupação em suavizar suas implicações mais cruéis. É uma versão brutal da história da Cinderela, que não apenas resgata o espírito sombrio do material original como o empurra para territórios ainda mais perturbadores, explorando obsessões com beleza, status e violência de maneira frontal e deliberadamente desconfortável.
Ambientado em um reino onde a aparência física é tratada como moeda social absoluta, o filme acompanha Rebekka (Ane Dahl Torp, de Terremoto), uma viúva ambiciosa que vê seus planos de ascensão ruírem quando o novo marido morre repentinamente, deixando como herança uma dívida colossal. Sem alternativas, Rebekka deposita todas as suas esperanças na filha mais velha, Elvira (Lea Myren, da série Kids in Crime), incentivando-a a se submeter a tratamentos de beleza cada vez mais extremos e degradantes. O objetivo é claro: moldar Elvira à imagem da perfeição para que ela conquiste o coração do príncipe, um homem distante de qualquer ideal romântico.
O problema é que, dentro da própria casa, existe um obstáculo aparentemente intransponível. Agnes (Thea Sofie Loch Næss, de Pânico no Ártico), a meia-irmã conhecida de forma cruel como Cinderella, é naturalmente bela e carrega uma presença que expõe, de maneira silenciosa, a artificialidade e o desespero do projeto imposto a Elvira. A rivalidade entre Elvira e Agnes não se constrói apenas no campo da inveja ou da competição amorosa, mas como um embate simbólico entre o corpo moldado pela violência e aquele que simplesmente existe.
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| Thea Sofie Loch Næss interpreta Agnes, também conhecida como Cinderella, em 'A Meia-Irmã Feia' |
A Meia-Irmã Feia conta com um elenco impecável. Lea Myren entrega uma performance notável ao construir Elvira como uma figura inicialmente doce e vulnerável, cuja necessidade de aprovação e amor vai, pouco a pouco, se transformando em algo cruel e irreconhecível. Essa transição é feita com precisão desconcertante, sem jamais perder a humanidade da personagem. Já Thea Sofie Loch Næss oferece uma Cinderela que se distancia radicalmente da iconografia popularizada pela Disney: sua Agnes é silenciosa, mas divertidamente consciente de seu lugar naquele jogo de aparências. Por vezes, é perturbadoramente indiferente ao sofrimento alheio.
O filme também se destaca pelos momentos de choque explícito. As sequências de terror corporal são algumas das mais deliciosamente indigestas vistas nos últimos anos, evocando comparações inevitáveis com A Substância, tanto pelo impacto visual quanto pela forma como o corpo feminino se torna campo de batalha para expectativas sociais e familiares. É um horror que nasce da ideia de transformação forçada, da carne tratada como matéria-prima descartável.
A diretora Emilie Blichfeldt, estreante em longa-metragem, demonstra uma coragem rara. Há um claro esforço em evocar o clima de produções europeias dos anos 1970: a fotografia, os cenários e os figurinos exalam elegância e sofisticação. No entanto, Blichfeldt não se apega a essa estética como escudo. Quando a narrativa exige, ela abandona qualquer verniz e atola sem hesitação o pé na lama, no grotesco e no desconforto, criando um contraste que potencializa o impacto das cenas mais extremas. Tudo isso com um senso de humor cruel, que garante algumas risadas pelo caminho.
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| Ane Dahl Torp e Lea Myren como Rebekka e Elvira no filme 'A Meia-Irmã Feia' |
A Meia-Irmã Feia aposta em uma construção lenta, por vezes excessivamente paciente, demorando a conduzir a história ao seu núcleo mais perturbador. Ainda assim, essa escolha encontra sua justificativa na metade final, quando o acúmulo de tensões, frustrações e violências finalmente explode de maneira catártica e cruel, recompensando o espectador disposto a se deixar envolver.
Trata-se de um conto de fadas deformado, cruel e profundamente contemporâneo. Um filme que usa o terror corporal não apenas para chocar, mas para expor o quanto a busca pela beleza idealizada pode ser, em si, uma forma de horror. Uma estreia impressionante e um título que certamente encontrará lugar de destaque entre os lançamentos mais ousados do terror recente.
Nota: 8/10
Título Original: Den stygge stesøsteren / The Ugly Stepsister
Título Nacional: A Meia-Irmã Feia.
Gênero: Drama, terror.
Produção: 2025.
Lançamento: 2025.
País: Noruega.
Duração: 1h 45min.
Roteiro: Emilie Blichfeldt.
Direção: Emilie Blichfeldt.
Elenco: Lea Myren, Ane Dahl Torp, Thea Sofie Loch Næss, Flo Fagerli, Isac Calmroth, Malte Myrenberg Gårdinger, Ralph Carlsson, Cecilia Forss, Katarzyna Herman, Adam Lundgren, Willy Ramnek Petri, Kyrre Hellum, Oksana Czerkasyna, Richard Forsgren, Agnieszka Żulewska.
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