Um chimpanzé raivoso torna-se uma ameaça mortal no novo thriller de sobrevivência do diretor Johannes Roberts
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| Hannah (Jess Alexander) percebe que tem um passageiro indesejado no carro em 'O Primata' | Foto: © 2025 PARAMOUNT PICTURES. ALL RIGHTS RESERVED |
Johannes Roberts é um diretor que já provou ser capaz de entregar entretenimento sólido quando trabalha dentro de limites bem definidos, como em Medo Profundo, mas também já demonstrou fragilidades em projetos mais ambiciosos ou mal calibrados, caso de Resident Evil: Bem-vindo a Raccoon City. Em O Primata, produção de 2025 que chega agora às plataformas digitais, ele parece mais confortável: abraça o absurdo controlado da proposta e aposta em ritmo, tensão e violência gráfica, sem grandes pretensões autorais. O resultado é irregular, mas raramente entediante.
O filme entra sem cerimônia no já tradicional subgênero de animais assassinos, trocando tubarões, jacarés ou ursos por um chimpanzé irritado e infectado pela raiva. A premissa é simples e direta: Lucy (Johnny Sequoyah, da série Bela, Recatada e do Lar) se reúne com a família em uma casa moderna no Havaí, cercada por paisagens paradisíacas. O animal de estimação da família, o chimpanzé Ben, contrai raiva, perde qualquer traço de domesticidade e passa a ameaçar a vida de todos. O que se segue é uma luta desesperada pela sobrevivência, com Lucy e suas amigas improvisando estratégias e se barricando dentro da piscina da casa, em um dos momentos mais memoráveis do filme.
O thriller de Roberts tem um elenco feminino carismático e competente. As personagens são particularmente agradáveis e fogem, na maior parte do tempo, de arquétipos excessivamente desgastados. Ironicamente, o grande destaque é Hannah, vivida por Jess Alexander (Nas Profundezas). Aparentemente escrita para ser a “amiga insuportável” que o público deveria odiar, ela acaba se tornando a figura mais divertida e interessante do grupo, seja pelo timing cômico, seja pela forma como reage ao caos crescente ao redor.
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| Johnny Sequoyah e Gia Hunter como as irmãs em apuros Lucy e Erin no filme 'O Primata' | Foto: © 2025 PARAMOUNT PICTURES. ALL RIGHTS RESERVED |
Roberts demonstra competência ao construir momentos genuínos de suspense, explorando bem os espaços da casa e o contraste entre a arquitetura limpa, quase clínica, e a violência que irrompe no local. Em determinado ponto, o roteiro chega a sugerir que a narrativa pode se transformar em uma metáfora pesada sobre o luto, mas, felizmente, essa ideia é rapidamente abandonada. O filme parece perceber a armadilha a tempo e decide se concentrar no que realmente sabe fazer: entreter, assustar e provocar reações imediatas no espectador.
Tecnicamente, O Primata também acerta ao investir em efeitos especiais old school, algo cada vez mais raro em produções desse tipo. As mortes são explícitas, há uma quantidade generosa de sangue falso e o chimpanzé Ben, interpretado por Miguel Torres Umba (Institute) sob uma máscara de borracha, é surpreendentemente convincente. A fisicalidade do personagem e a escolha por efeitos práticos ajudam a vender a ameaça de forma muito mais eficaz do que um animal totalmente digitalizado faria, especialmente nos confrontos corpo a corpo.
Por outro lado, algumas decisões relacionadas a Ben são questionáveis. Em muitos momentos, o chimpanzé parece atacar movido por vingança e não pela raiva, o que joga o filme em um terreno mais próximo das produções slashers. E há outros problemas, como o completo descaso do roteiro com alguns personagens masculinos. A introdução de dois rapazes na metade final, por exemplo, é um desastre de escrita.
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| Lucy e seus amigos encaram o chimpanzé irritado no filme 'O Primata' | Foto: © 2025 PARAMOUNT PICTURES. ALL RIGHTS RESERVED |
Esses dois personagens são tão caricatos e estúpidos que beiram o constrangedor, levantando a dúvida se o roteiro foi escrito às pressas ou por alguém que confunde sátira com preguiça narrativa. O longa até tenta se redimir ao dar espaço a um terceiro personagem melhor escrito, interpretado por Troy Kotsur (Número 23), mas o dano já está feito e pesa negativamente na experiência.
Há, ainda, diversas facilitações narrativas difíceis de engolir, como celulares que tocam nos piores momentos possíveis ou personagens que, por puro azar conveniente, pisam em controles remotos e ligam a televisão no volume máximo. São artifícios pensados para gerar perigo imediato, mas que acabam quebrando a imersão e lembrando o espectador de que tudo está sendo manipulado pelo roteiro, em vez de fluir de forma orgânica.
O Primata é um filme divertido, violento e competente dentro de sua proposta, mas que deixa uma sensação incômoda de potencial desperdiçado. Há bons momentos, um confronto final empolgante, ainda que exagerado, e escolhas técnicas acertadas, mas as decisões de roteiro questionáveis impedem a obra de ir além. Funciona como passatempo e diverte enquanto dura, mas poderia, facilmente, ter sido muito melhor.
Nota: 6/10
Título Original: Primate.
Título Nacional: O Primata.
Gênero: Terror.
Produção: 2025.
Lançamento: 2026.
País: Estados Unidos da América, Reino Unido, Canadá, Austrália.
Duração: 1 h 29 min.
Roteiro: Johannes Roberts, Ernest Riera.
Direção: Johannes Roberts.
Elenco: Johnny Sequoyah, Jess Alexander, Troy Kotsur, Victoria Wyant, Gia Hunter, Benjamin Cheng, Charlie Mann, Tienne Simon, Miguel Torres Umba, Amina Abdi.
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