Com boas ideias desperdiçadas, um vilão genérico e personagens pouco envolventes, 'Passageiro do Mal' confirma a fase irregular do diretor de 'A Autópsia'.
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| 'Passageiro do Mal' | Foto: © 2025 PARAMOUNT PICTURES. ALL RIGHTS RESERVED. |
Poucos diretores chegaram ao fim da década de 2010 cercados de tanta boa vontade quanto o norueguês André Øvredal. Depois de chamar atenção com Caçador de Trolls, consolidar seu talento com o ótimo A Autópsia e entregar uma adaptação competente em Histórias Assustadoras para Contar no Escuro, parecia apenas questão de tempo até que seu nome figurasse entre os grandes realizadores do terror contemporâneo. Então veio Drácula – A Última Viagem do Demeter, uma decepção considerável. Infelizmente, o novo trabalho do diretor, Passageiro do Mal, demonstra que aquilo talvez não tenha sido um acidente de percurso, mas o início de uma preocupante curva descendente.
A abertura de Passageiro do Mal sugere um filme mais interessante do que aquele que realmente existe. Dois jovens cruzam uma estrada deserta durante a madrugada quando encontram uma ameaça aparentemente sobrenatural. Há um conceito promissor ali, uma atmosfera que parece prestes a nascer e a promessa de um pesadelo rodoviário digno dos melhores terrores de estrada. Mas basta a primeira sequência terminar para Øvredal revelar aquele que será o maior problema do longa: toda situação potencialmente assustadora acaba inevitavelmente sacrificada em nome de um jumpscare previsível, quase burocrático. O diretor parece tão ansioso para provocar um susto imediato que esquece de construir suspense.
Quando os protagonistas finalmente entram em cena, a sensação de déjà vu se torna inevitável. Tyler (Jacob Scipio), um entusiasta de viagens incapaz de criar raízes, convence sua namorada Maddie (Lou Llobell) a embarcar em uma aventura sobre rodas. Ela, por outro lado, cresceu passando por famílias adotivas e sonha justamente com estabilidade. O que se segue é quase uma releitura muito mais elegante — embora não necessariamente melhor — das situações envolvendo o casal de Olhos Famintos: Renascimento.
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| 'Passageiro do Mal' | Foto: © 2025 PARAMOUNT PICTURES. ALL RIGHTS RESERVED. |
O conflito entre Tyler e Maddie até rende um ou outro diálogo convincente, especialmente quando o roteiro explora as cicatrizes emocionais que moldaram suas visões completamente opostas sobre o significado de "lar". O problema é que essa discussão permanece girando em círculos durante boa parte da projeção. Em vez de aprofundar os personagens, ela apenas serve para adiar o inevitável confronto com a criatura da cena de abertura. Quando percebemos, já passou bastante tempo e continuamos sabendo muito pouco sobre quem essas pessoas realmente são, ou por que deveríamos nos importar com elas.
Os coadjuvantes também pouco ajudam. Entre eles está Melissa Leo, vencedora do Oscar, desperdiçada em um daqueles papéis clássicos do cinema de terror: a pessoa misteriosa que surge convenientemente para despejar meia dúzia de explicações sobre a ameaça sobrenatural antes de desaparecer novamente. É quase como se o roteiro lembrasse, de última hora, que alguém precisava explicar ao público o que estava acontecendo.
Falando na criatura, aí reside outra grande decepção. O chamado Passageiro integra aquela interessante linhagem de maldições ambulantes representadas por filmes como O Chamado, Arraste-me para o Inferno e Corrente do Mal: forças sobrenaturais que escolhem uma vítima e simplesmente se recusam a desistir dela. A ideia continua funcionando. A execução, nem tanto. O visual da entidade é genérico, sua presença raramente transmite ameaça e, quando o roteiro finalmente tenta estabelecer as regras que governam sua existência, tudo desanda numa mistura confusa de demônios, religiosidade e simbolismos ligados ao estilo de vida dos personagens. Em vez de ampliar o mistério, as explicações apenas tornam tudo mais bagunçado.
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| 'Passageiro do Mal' | Foto: © 2025 PARAMOUNT PICTURES. ALL RIGHTS RESERVED. |
Passageiro do Mal não é completamente desprovido de qualidades. A produção tem acabamento técnico competente, a fotografia valoriza bem as estradas isoladas e algumas sequências conseguem despertar interesse antes de serem sabotadas por mais um susto sonoro. A cena do estacionamento, por exemplo, é bastante eficiente, assim como a sequência em que Tyler e Maddie improvisam uma sessão de cinema em plena floresta. São momentos em que Øvredal demonstra o talento visual que o tornou conhecido. Pena que quase sempre estrague a própria construção dramática segundos depois.
Curiosamente, é justamente quando o filme deixa qualquer pretensão de ser levado a sério que ele começa a funcionar um pouco melhor. O confronto final abraça uma energia quase trash, exagerando situações e permitindo que a violência sobrenatural ganhe contornos mais divertidos. Dá até para imaginar uma versão muito mais interessante de Passageiro do Mal caso Øvredal tivesse adotado esse espírito desde os primeiros minutos. Talvez não fosse um grande filme, mas certamente seria um entretenimento mais honesto.
Passageiro do Mal desperdiça uma premissa que já provou funcionar inúmeras vezes no terror contemporâneo. Há competência técnica, algumas boas ideias isoladas e uma ou outra sequência inspirada, mas falta praticamente tudo aquilo que fazia os melhores trabalhos de André Øvredal se destacarem: atmosfera, tensão e confiança para deixar o medo crescer naturalmente. O resultado é um longa que passa boa parte do tempo acelerando rumo ao susto fácil, mas raramente encontra o caminho até o verdadeiro horror. Talvez sua maior qualidade seja justamente o clímax espalhafatoso, que ao menos permite ao espectador sair da sessão com um sorriso tímido no rosto. Pena que o restante da viagem seja tão sem graça.
Nota: 4/10
Título Original: Passenger.
Título Nacional: Passageiro do Mal.
Gênero: Terror.
Produção: 2026.
Lançamento: 2026.
País: Estados Unidos da América.
Duração: 1 h 37 min.
Roteiro: Zachary Donohue, T.W. Burgess.
Direção: André Øvredal.
Elenco: Jacob Scipio, Lou Llobell, Melissa Leo, Joseph Lopez, Miles Fowler, Alan Trong, Devielle Johnson, James William Clark, Tony Doupe, Charles Leggett, June Clemons, Bonni Dichone, William Lin-Yee, Joey Freitas.
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