David Bruckner reabre a portas do inferno em 'Hellraiser', reboot do Hulu estrelado por Odessa A'zion
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Jamie Clayton como Pinhead no filme 'Hellraiser', de David Bruckner | Foto: ©Hulu |
Trinta e cinco anos e nove sequências após Kirsty Cotton ter seu primeiro encontro com exploradores extradimensionais vestidos de roqueiros sadomasoquistas dos anos 80, a franquia Hellraiser está de volta às telas. Só que desta vez não temos Kirsty e nem roupas de roqueiro, porque o novo Hellraiser é um reboot. Ou, nas palavras dos próprios realizadores, "uma releitura leal, porém evoluída" do filme de 1987.
A nova versão do pesadelo excêntrico e às vezes assustador de Clive Barker é estrelada por Odessa A'zion (Let's Scare Julie). O roteiro é de Ben Collins e Luke Piotrowski (Sereia Predadora), baseado no argumento que escreveram com David S. Goyer (Alma Perdida). O filme do Hulu é comandado por um dos diretores mais promissores da atualidade: David Bruckner, mesmo realizador de A Casa Sombria, O Ritual, e o segmento 'Amateur Night', da antologia de terror V/H/S.
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Filmado em Belgrado, Sérvia, o reboot segue Riley (A'zion), uma jovem de 20 e poucos anos que acabou de sair da reabilitação e está lutando para deixar seus vícios para trás. Riley mora na casa do irmão Matt (Brandon Flynn, de Lindo de Morrer), que é amoroso, mas autoritário. Não dá para julgá-lo, pois às vezes Riley realmente dá trabalho, como na noite chuvosa em que volta para casa bêbada após participar de um furto na companhia do novo namorado, Trevor (Drew Starkey, de O Ódio que Você Semeia).
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Odessa A’zion como Riley no filme 'Hellraiser', de David Bruckner | Foto: ©Hulu |
O produto do furto é uma caixa de quebra-cabeças elegantemente projetada, que Riley não demora para desbloquear. Se você acompanha Hellraiser, sabe onde essa história vai parar. Só que, desta vez, as regras são muito diferentes daquelas que conhecemos. A essência do filme original e do livro The Hellbound Heart, base da franquia, estão lá, e o próprio Clive Barker está envolvido no projeto como produtor. Mas há uma reconfiguração na história, que talvez não agrade todos os fãs.
As novas regras se aplicam não apenas à Caixa de Lemarchand, mas também aos cenobitas, criaturas para as quais dor e prazer são sinônimos. A misteriosa divindade conhecida como Leviathan também ganha destaque no filme, em cenas grandiosas com vibe de conto de Lovecraft. Acredito que o resultado seria melhor se o roteiro não tivesse acrescentado tanta informação ao que deveria ter sido uma reimaginação mais centrada, mas entendo que a decisão foi necessária para estabelecer as bases do que pode se tornar uma nova trilogia.
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Bruckner entrega um filme atmosférico e polido, valorizado por efeitos práticos e CGI bem cuidados, e por uma trilha sonora marcante, que resgata trechos da trilha original. O diretor não tenta refazer o trabalho de Barker, mas presta homenagens que os fãs reconhecerão bem cedo. A cena em que Serena Manaker (Hiam Abbass, da série Succession) chega à Sérvia para obter a Caixa de Lemarchand, por exemplo, é idêntica à de Julia no filme original, quando ela sai pela primeira vez para obter vítimas para o amante Frank.
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Odessa A’zion como Riley no filme 'Hellraiser', de David Bruckner | Foto: ©Hulu |
O diretor também se esforça para manter intactos elementos como a violência e o sexo, motivação para tudo no filme original. Nem sempre funciona, e o fato da nudez ser severamente censurada aponta que Bruckner tentou abocanhar mais do que o Hulu, de propriedade da Disney, permitiria que ele engolisse. Por outro lado, você ficará provavelmente surpreso ao descobrir o quão sangrento este filme é.
O caos se intensifica na metade final, quando o ritmo deixa de ser vacilante e os cenobitas se materializam em nosso mundo para espetar, retalhar e arrancar a pele de curiosos. Mesmo não tendo a presença imponente do icônico Doug Bradley, que interpretou Pinhead na maioria dos filmes da franquia, a atriz Jamie Clayton (série Sense8) rouba a cena como a nova Hell Priest, líder dos cenobitas. Há algo delicadamente arrepiante em seus gestos e palavras, particularmente nas cenas em que parece demonstrar curiosidade pelo comportamento e pelas escolhas humanas.
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O visual de Hell Priest/Pinhead continua marcante, assim como sua habilidade para controlar correntes com ganchos pontiagudos. O novo design, com direito a carne mutilada e tecido muscular saliente, não funciona para todos os cenobitas, e alguns parecem um pouco plastificados. Mas existem alguns genuinamente assustadores, e os monstros ainda ganham pontos pela decisão dos roteiristas de colocá-los no campo de batalha, aumentando o nível de perigo para os personagens.
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Odessa A’zion e Drew Starkey como Riley e Trevor e no filme 'Hellraiser', de David Bruckner | Foto: ©Hulu |
Odessa A'zion faz um bom trabalho como a jovem atormentada que abre as portas para a dimensão dos prazeres dolorosos por acidente, e mantém aberta na esperança de reverter uma tragédia. Goran Visnjic (Toda Forma de Amor) surge como Voight, um milionário demente que aparenta saber muito sobre os cenobitas. Voight aparece nos minutos iniciais, e volta a ganhar destaque no último ato, funcionando como um híbrido de Frank, do primeiro Hellraiser, e do Dr. Phillip Channard, de Hellraiser 2.
Os personagens restantes, incluindo o namorado de Matt, Colin (Adam Faison, de Daphne & Velma) e a colega de quarto de Riley, Nora (Aoife Hinds, de O Passageiro), ganham pouca atenção do roteiro. No começo servem como alívio cômico. Na metade final, servem para auxiliar a heroína em sua busca por respostas, reagir com horror ao perceber que estão lidando com forças além da compreensão humana e, é claro, fornecer carne extra para os cenobitas mutilarem.
Por experiência própria, aprendi que devemos ficar com um pé muito lá atrás toda vez que alguém anuncia releituras evoluídas de obras que amamos. Mas no caso de Hellraiser, acredito que a visão moderna funcionou bem. Mesmo que não cause o mesmo impacto do filme original, essa nova jornada horrivelmente bem orquestrada pelo mundo dos seres que podem ser anjos para alguns e demônios para outros, está muitos passos à frente de todas as sequências do clássico de Barker.
Nota: 7/10
Título Original: Hellraiser.
Gênero: Terror.
Produção: 2022.
Lançamento: 2022.
País: Estados Unidos da América, Sérvia.
Duração: 2 h 1 min.
Roteiro: Ben Collins, Luke Piotrowski, David S. Goyer.
Direção: David Bruckner.
Elenco: Odessa A’zion, Jamie Clayton, Adam Faison, Drew Starkey, Brandon Flynn, Aoife Hinds, Jason Liles, Yinka Olorunnife, Selina Lo, Zachary Hing, Kit Clarke, Goran Visnjic, Hiam Abbass, Predrag Bjelac, Gorica Regodic, Vukasin Jovanovic, Ivona Kustudic, Greg De Cuir, Miodrag Milovanov, Nikola Kent, Katarina Gojkovic.