Alexandre Aja transformou um remake improvável em uma aula de entretenimento, gore e humor politicamente incorreto que só melhora com o passar dos anos.
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| Arte do filme 'Piranha' (2010) |
Durante muito tempo, Piranha (Piranha 3D, 2010) ocupou um lugar ingrato dentro do cinema de terror. Era o remake desnecessário de um clássico de Joe Dante, o filme das mulheres de biquíni, da violência gratuita e do humor adolescente. Um daqueles títulos que muita gente citava quase como uma piada, colocando-o na mesma prateleira dos incontáveis longas de tubarões gigantes, crocodilos mutantes e criaturas digitais lançados direto em streaming.
Mas existe um fenômeno curioso que acontece com alguns filmes de terror: eles parecem melhorar a cada nova revisita. A Bolha Assassina passou anos sendo tratado como um remake exagerado, até que finalmente foi reconhecido como um clássico do body horror. Garota Infernal saltou de fracasso de bilheteria para o status de cult, um filme feminista muito à frente de seu tempo. O Enigma de Outro Mundo, massacrado na época de seu lançamento, hoje é reconhecido como uma das maiores obras-primas do horror cósmico.
Clássicos absolutos do cinema como O Homem de Palha e A Vingança de Jennifer reforçam a lista de obras injustiçadas que ganharam reconhecimento com o passar do tempo.. E acredito que Piranha vai seguir pelo mesmo caminho. Na verdade, vou além: acho que Alexandre Aja realizou o melhor filme de criaturas aquáticas desde Tubarão. Talvez não o mais importante e não o mais influente. Mas certamente o mais divertido.
Isso está longe de ser um elogio pequeno. Afinal, desde o clássico de Steven Spielberg, tivemos bons representantes do gênero. Morte Súbita apostou em um crocodilo faminto. Medo Profundo explorou a claustrofobia das profundezas. Águas Rasas transformou uma única praia em um palco de tensão constante. O próprio Alexandre Aja retornaria anos depois com Predadores Assassinos, substituindo peixes pré-históricos por jacarés durante um furacão.
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| Ving Rhames em 'Piranha' (2010) |
Todos são ótimos filmes. Nenhum deles, entretanto, se diverte tanto quanto Piranha. Essa pérola sobre piranhas pré-históricas que aterrorizam uma cidade turística durante o spring break nunca tenta convencer o espectador de que está diante de algo sofisticado. Ele sabe exatamente o que é: um exploitation moderno produzido com orçamento de blockbuster, efeitos especiais impecáveis e uma equipe que parece determinada a perguntar, a cada cinco minutos, "como podemos tornar esta cena ainda mais absurda?".
Essa honestidade transborda desde a deliciosa sequência de abertura. Antes mesmo que a primeira vítima apareça, Alexandre Aja deixa claro que não pretende competir com Tubarão, mas brincar com seu legado. Richard Dreyfuss surge sozinho em seu barco. A água começa a se mover. O personagem percebe o perigo. O espectador percebe que ele vai precisar de um barco maior. É uma homenagem descarada, bem-humorada e perfeitamente consciente de si mesma.
Pouco depois, Dreyfuss é arrastado para o fundo do lago. É como se Aja dissesse: "Obrigado por tudo, Spielberg. Agora deixa comigo". E o mais impressionante é que ele realmente sabe o que está fazendo.
Muito se fala sobre o humor escrachado do filme. E com razão. Há piadas politicamente incorretas, nudez gratuita, provocações constantes ao olhar masculino, e um desfile de situações que dificilmente seriam produzidas por um grande estúdio nos dias de hoje. No entanto, reduzir Piranha a esse aspecto é ignorar metade da experiência.
Alexandre Aja é, antes de tudo, um excelente diretor de terror. Basta observar a investigação noturna da xerife Julie Forester (Elisabeth Shue) nas águas escuras do Lago Victoria. O lago, iluminado apenas por lanternas e pelo reflexo da lua, adquire uma atmosfera quase sobrenatural. Em outro momento, a sequência dos mergulhadores transforma uma simples exploração subaquática em um pesadelo que remete a Alien. São cenas construídas com paciência, domínio do suspense e um senso espacial que muitos filmes de monstros jamais alcançam.
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| Riley Steele e Kelly Brook em 'Piranha' (2010) |
O elenco também ajuda muito mais do que costuma receber crédito. Steven R. McQueen interpreta Jake com uma simpatia rara para protagonistas adolescentes desse tipo de produção. Elisabeth Shue encontra um bom equilíbrio entre autoridade e carisma, funcionando como o verdadeiro coração emocional da história. Jessica Szohr empresta charme imediato a Kelly, enquanto Jerry O'Connell transforma Derrick Jones em um dos personagens mais deliciosamente insuportáveis do cinema de terror dos anos 2010 — um produtor de vídeos adultos tão egocêntrico que parece acreditar ser o protagonista de um reality show permanente.
E então existe Danni, a estrela do site "Wild Wild Girls". Interpretada por Kelly Brook, ela poderia facilmente ser apenas mais um corpo bonito ocupando espaço na tela. Em vez disso, conquista o público com uma ingenuidade e gentileza inesperadas, além de um carisma genuíno. Sua cena final continua sendo uma das mais cruéis do filme. Os roteiristas Pete Goldfinger e Josh Stolberg parecem compreender perfeitamente uma velha regra do horror: quanto mais gostamos de um personagem, maior será o impacto quando ele desaparecer da maneira mais horrível possível.
Como se tudo isso ainda não bastasse, o remake de Piranha encontra tempo para incluir Christopher Lloyd interpretando um cientista cuja principal função consiste em explicar, com absoluta convicção, que aquelas criaturas são piranhas pré-históricas famintas. É um papel pequeno, mas Lloyd entrega cada linha de diálogo com a mesma energia que sempre tornou seus personagens inesquecíveis. E, sinceramente, qualquer filme que coloque Christopher Lloyd para falar sobre peixes assassinos já merece, no mínimo, uma chance.
Depois há pequenos momentos que desafiam qualquer tentativa de classificação: um balé aquático sensual coreografado ao som do belíssimo "Dueto das Flores", da ópera Lakmé; Ving Rhames enfrentando uma horda de piranhas com uma espingarda calibre 12 antes de partir para um motor de barco como arma improvisada. Tudo parece saído da imaginação de alguém que cresceu alugando fitas de horror italiano e filmes B americanos durante os anos 1980. E, curiosamente, em meio a toda essa insanidade, Alexandre Aja ainda encontra espaço para construir algumas das cenas de suspense mais eficientes de sua carreira.
Quando Kelly fica presa sob o barco enquanto as piranhas se aproximam, o diretor abandona completamente o humor. A sequência é longa, sufocante e angustiante. O espectador sabe exatamente onde estão os peixes, conhece o perigo e, ainda assim, permanece preso à cadeira, esperando pelo inevitável. É direção em seu estado mais puro: tensão construída através do tempo, da montagem e do domínio absoluto do espaço.
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| Jerry O'Connell em 'Piranha' (2010) |
Mas nada prepara o público para o massacre do spring break no ato final de Piranha. Existem grandes sequências de mortes na história do terror: o baile em Carrie, a Estranha; o cortador de grama em Fome Animal; o laboratório em O Segredo da Cabana; a boate em Hellraiser III: Inferno na Terra. Todas merecem figurar entre as maiores demonstrações de caos já filmadas. Ainda assim, poucas alcançam a escala da carnificina promovida por Piranha.
Durante longos minutos, Alexandre Aja transforma um cenário de festa ensolarada em um verdadeiro inferno aquático. Hélices dilaceram corpos, cabos de aço arrancam membros, barcos colidem, pessoas são devoradas diante de centenas de testemunhas, Eli Roth tem a cabeça esmagada e o lago inteiro parece ferver de sangue. O mais impressionante é que a sequência jamais se torna repetitiva. O diretor alterna humor negro, suspense, heroísmo e gore com um ritmo impecável, transformando o caos em espetáculo sem perder a clareza visual. É um balé grotesco, uma ópera splatter coreografada com a precisão de um grande filme de ação.
É por tudo isso que Piranha parece ter envelhecido tão bem. Enquanto tantos filmes modernos de criaturas parecem preocupados em convencer o espectador de que são relevantes, sombrios ou "elevados", Alexandre Aja nunca esconde suas intenções. Ele quer divertir. Quer chocar. Quer fazer o público rir de nervoso, fechar os olhos diante de uma mutilação absurda e, segundos depois, gargalhar de uma piada completamente irresponsável.
Não existe cinismo nessa abordagem. Existe confiança. Confiança de um diretor que compreende profundamente o cinema de gênero e sabe que entretenimento não é um conceito menor. Pelo contrário: fazer um filme funcionar como uma montanha-russa durante quase duas horas exige uma precisão que poucos cineastas possuem.
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| Kelly Brook em 'Piranha' (2010) |
Talvez nunca exista outro Tubarão. Nem precisa existir. Spielberg realizou o filme definitivo sobre o medo do desconhecido escondido sob a superfície da água. Trinta e cinco anos depois, Alexandre Aja fez algo completamente diferente: o filme definitivo sobre o prazer de ver esse medo desconhecido emergir da água, sem cerimônias, e transformar um paraíso ensolarado em um açougue.
Rever Piranha hoje é perceber que ele não é apenas um bom filme ruim. É simplesmente um ótimo filme de criaturas aquáticas. Piranha nunca quis ser respeitável. Ironia das ironias, talvez seja justamente por isso que, dezesseis anos depois, ele mereça muito mais respeito do que jamais recebeu.
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